Eu faço essa pergunta porque, sinceramente, está cada vez mais difícil enxergar a Câmara como um poder independente.
A aprovação, em regime de urgência, da criação de 16 cargos comissionados na Prefeitura de Brusque não foi apenas mais uma votação. Foi um recado político. Um recado claro de que, quando o interesse do Executivo entra em pauta, boa parte do Legislativo parece pronta para apertar o botão sem grande resistência. Só três vereadores votaram contra: Bete Eccel, Felipe Hort e Rick Zanata (esses dois últimos se manifestaram na tribuna apenas contra o regime de urgência, não contra a criação dos cargos). O restante preferiu ampliar ainda mais a estrutura de cargos de livre nomeação, sem concurso, pagos com dinheiro público.
E o problema não está apenas nesses 16 cargos. O problema está no conjunto. Segundo o Portal da Transparência, em fevereiro a Prefeitura de Brusque tinha 284 comissionados, ao custo mensal de R$ 2.517.028,02. Mantido esse ritmo, são mais de R$ 181 milhões em seis anos de mandato. E isso sem contar os diretores de escolas e creches, nem os 39 cargos criados para as escolas cívico-militares.
É dinheiro demais. É estrutura política demais. É facilidade demais para mexer na máquina quando o objetivo é acomodar cargos. E, diante disso, cabe perguntar: até onde vai essa conta? E quem, de fato, está disposto a frear esse modelo?
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A mesma Câmara que foi veloz para aprovar mais cargos não demonstra a mesma energia quando o assunto é fiscalização de verdade. E isso não é impressão. Isso é percepção construída pelos fatos.

Na comunicação da gestão André Vechi e Deco Batisti, por exemplo, os números também chamam atenção. Entre 2024 e março de 2026, os gastos com estrutura interna, agência e publicidade passaram de R$ 9,2 milhões. Só a agência Tempo Brasil recebeu mais de R$ 6,2 milhões nesse período. E não apenas para produzir material. A agência também opera repasses de verba para veículos de comunicação.
Ou seja: além da estrutura interna já bancada pelo contribuinte, existe uma engrenagem terceirizada milionária funcionando para alimentar a comunicação oficial e a distribuição de verba publicitária. Tudo isso com dinheiro público. Tudo isso em uma gestão que não economiza quando o assunto é imagem, narrativa e divulgação institucional. E Câmara não deu um piu sobre esse assunto até o momento.
Enquanto isso, temas muito mais sérios seguem cobrando coragem, independência e enfrentamento. O caso do servidor do Samae investigado. A auditoria do Denasus na saúde. O avanço da dengue no Limoeiro. A obra desgastante na Avenida Primeiro de Maio. O rombo na saúde que ainda não foi explicado. Onde está a urgência da Câmara nesses assuntos? Onde está a disposição de apertar o governo? Onde está o zelo de quem deveria atuar em nome da população e não em sintonia confortável com o Executivo?
O que se vê, cada vez mais, é uma Câmara dócil. Uma Câmara previsível. Uma Câmara que parece se mover com firmeza quando a pauta interessa ao governo, mas perde força quando a cidade precisa de fiscalização real. E isso corrói a credibilidade do Legislativo.
Não estou dizendo que todo cargo comissionado é ilegal. Não estou dizendo que todo gasto com publicidade é irregular. Estou dizendo algo talvez mais grave: do ponto de vista político e moral, a Câmara de Brusque está falhando em demonstrar independência.
E quando um poder falha em demonstrar independência, abre espaço para a pior de todas as suspeitas: a de que deixou de ser fiscal e passou a ser apoio. Deixou de ser contrapeso e passou a ser extensão. Deixou de ser Câmara e virou puxadinho.
Se isso incomoda, ótimo. Porque deveria incomodar mesmo.
Mais incômodo ainda é ver milhões sendo gastos, cargos sendo criados e problemas graves da cidade pedindo resposta, enquanto o Legislativo parece satisfeito em cumprir um papel menor do que a cidade merece.
Brusque precisa de uma Câmara que enfrente. Que questione. Que incomode o poder quando for necessário. Não de uma Câmara que funcione como ante-sala política da Prefeitura.
Hoje, a pergunta não é ofensiva. É pertinente.
E, olhando para os fatos, talvez ela esteja até sendo generosa demais.







