A sessão da Câmara de Brusque que convocou o secretário de Relações Institucionais da Prefeitura, Brunno Godoy, para explicar os gastos com publicidade oficial terminou com uma cena que resume bem o problema: depois de falar em transparência, portas abertas e disposição ao diálogo, o secretário correu do Olhar do Vale.
Foi uma atitude patética. E foi ainda mais grave porque partiu justamente de quem ocupa uma pasta chamada Relações Institucionais. Um secretário desta área deveria ser, antes de tudo, alguém preparado para dialogar com vereadores, imprensa e sociedade. Inclusive com quem faz perguntas incômodas.
Durante a sessão, Brunno falou muito. Mas explicou pouco. Diante dos questionamentos feitos principalmente pelos vereadores Rick Zanatta, Felipe Hort e Bete Eccel, o secretário se apoiou em expressões genéricas como “discricionariedade”, “alcance”, “mercado”, “Portal da Transparência” e “portas abertas”. O problema é que nenhuma dessas palavras substitui documento, critério técnico, planilha, métrica de resultado ou justificativa objetiva para o uso do dinheiro público.
O mais revelador é que o secretário só conseguiu falar com alguma desenvoltura sobre os veículos que recebem recursos da Prefeitura. Justificou valores com base em alcance, estrutura e audiência. Mas, quando a pergunta tocou no outro lado da moeda os veículos que não recebem, os critérios de exclusão e a possibilidade de a linha editorial influenciar na distribuição da verba a resposta desapareceu no nevoeiro da “discricionariedade”.
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E é justamente aí que mora o problema. A Prefeitura não precisa apenas explicar por que anuncia determinados veículos, especialmente aqueles vistos como alinhados à gestão municipal. Precisa explicar também por que não anuncia em outros. Precisa dizer, com documento e critério técnico, por que determinados portais, rádios, jornais, blogs e canais entram no planejamento de mídia e outros simplesmente ficam de fora. Vale destacar que no caso do Olhar do Vale, o espaço para a divulgação sempre estará aberto para qualquer órgão, porém jamais o anunciante mandará no editorial do nosso portal.
Não basta dizer que o critério é técnico. É preciso provar. Publicidade institucional é legítima quando serve para informar a população sobre serviços públicos, campanhas de vacinação, alertas da Defesa Civil, saúde, educação, assistência social e outros temas de interesse coletivo. Mas não pode ser usada como vitrine política da gestão, nem como instrumento para fortalecer veículos simpáticos ao governo e ignorar veículos críticos.
Durante a sessão, Brunno tentou embalar os gastos em uma justificativa social. Falou em vacinação, serviços públicos, eventos, Conselho Tutelar, Família Acolhedora e outras pautas de interesse público. Mas, no centro da polêmica, o que aparece não são grandes campanhas sociais. O que aparece são ações como IPTU, “Asfaltaço”, contrato de concessão do esgoto e peças que, mais do que informar, ajudam a promover a imagem da administração.
Essa narrativa, portanto, não se sustenta sem prova. Se houve campanhas sociais relevantes, que a Prefeitura apresente. Se os recursos foram usados majoritariamente para campanhas de interesse público, que mostre campanha por campanha, valor por valor, veículo por veículo, objetivo por objetivo e resultado por resultado. Agora, se a verba foi usada para IPTU, “Asfaltaço”, concessão do esgoto e promoção de ações do prefeito, que a gestão assuma.
O que não dá é usar a expressão “comunicação pública” como guarda-chuva para esconder publicidade com cara de propaganda política. Outro ponto preocupante foi a reclamação do secretário sobre pedidos de informação. Em determinado momento, ele disse que o excesso de pedidos pode “atravancar” o trabalho dos servidores. A frase revela uma visão equivocada sobre transparência. Pedido de informação não atravanca a administração pública. Pedido de informação fiscaliza a administração pública.
Quem administra dinheiro do contribuinte precisa entender que responder a vereadores, imprensa e população não é favor. É dever. Também chamou atenção a postura de parte da base governista. Em vez de aproveitar a convocação para cobrar respostas claras, alguns vereadores preferiram proteger o secretário, relativizar os questionamentos e atacar quem estava fiscalizando. Questionar gasto público virou quase uma ofensa. Curioso conceito de fiscalização: quando a pergunta agrada ao governo, é diálogo; quando incomoda, vira covardia.
A fala do secretário em outro vídeo, ao dizer que a gestão trabalha com veículos “sérios” e que fazem “bom trabalho”, torna a discussão ainda mais grave. Quem define o que é um veículo sério? A Prefeitura? O secretário? A agência? O critério é audiência, alcance, entrega técnica e resultado? Ou é simpatia política?
Em uma democracia, imprensa séria não é aquela que passa a mão na cabeça do poder. Imprensa séria é aquela que pergunta, fiscaliza, incomoda quando precisa e não depende da boa vontade do governo para existir.
Quando o poder público despeja recursos em veículos alinhados à gestão e deixa veículos críticos de fora, a publicidade institucional passa a levantar uma suspeita legítima: trata-se de comunicação pública ou de controle político da narrativa? Brusque precisa amadurecer esse debate.
Publicidade oficial não pode virar prêmio para veículo aliado, punição para veículo crítico ou ferramenta de construção da imagem do governo da vez. Dinheiro público exige critério público. Exige transparência real. Exige justificativa para quem recebe e também para quem não recebe.
O mais irônico é que Brunno Godoy repetiu que estava de portas abertas. Mas, quando o Olhar do Vale tentou entrevistá-lo ao fim da sessão, a porta parece ter fechado. Para um secretário de Relações Institucionais, a cena foi constrangedora. Para um secretário de “falta” de relações institucionais, foi coerente.
No fim, a pergunta que fica é simples: a publicidade oficial em Brusque segue critérios técnicos ou conveniência política?Enquanto a Prefeitura não responder isso com documentos, métricas e transparência de verdade, a desconfiança continuará sendo não apenas legítima, mas necessária. Porque o dinheiro não é do prefeito. Não é do secretário. Não é dos veículos de comunicação. É da população.
E a população tem o direito de saber se está pagando por informação pública ou por blindagem política. Veja o vídeo da “corridinha” do Secretário quando o Olhar do Vale o procurou:




