Para traduzir politicamente a proposta, o benefício pode ser chamado de “Bolsa Farda”: dinheiro público destinado, com base em critérios de renda, a um grupo específico da população.
Em Brusque, aparentemente, uma bolsa deixa de ser assistencialismo quando o beneficiário veste uma farda. A Câmara de Vereadores aprovou, na sessão de terça-feira, 14 de julho, em primeira discussão e votação, o projeto que cria o chamado “Auxílio Atirador”. Na prática, trata-se de uma transferência mensal de R$ 200 para jovens em situação de vulnerabilidade econômica durante o período de instrução no Tiro de Guerra 05-005.
O projeto foi aprovado por sete votos a cinco, mas ainda não está definitivamente aprovado. Como passou somente pela primeira votação, terá que retornar ao plenário para uma segunda discussão e votação. Apenas depois de uma nova aprovação poderá concluir sua tramitação e ser transformado em lei.
A “Bolsa Farda” foi proposta pelo prefeito
Há um detalhe central nessa discussão: o projeto não foi criado por um vereador de esquerda nem por algum parlamentar historicamente ligado à defesa de programas sociais. A proposta partiu do próprio Poder Executivo, comandado pelo prefeito André Vechi, do PL.
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É, portanto, a gestão municipal que decidiu criar um novo pagamento mensal destinado a pessoas selecionadas por critérios de vulnerabilidade social. O Projeto de Lei Ordinária nº 106/2025 foi encaminhado pela Prefeitura e prevê que os recursos sejam utilizados para custear despesas básicas dos jovens durante o período de instrução no Tiro de Guerra.
Uma incoerência, pois Vechi e seu grupo político costumam adotar um discurso crítico aos auxílios assistenciais, defendendo o emprego como caminho para reduzir a dependência de programas sociais.
No entanto, quando o público beneficiado está ligado ao serviço militar, a mesma administração que comemora a diminuição do número de beneficiários do Bolsa Família decidiu recorrer justamente a uma transferência direta de dinheiro público.
Quando o auxílio chega às famílias pobres, o discurso costuma mencionar dependência, acomodação e necessidade de procurar emprego. Quando os R$ 200 são destinados a um jovem de farda, surgem expressões como “ajuda de custo”, “rede de apoio”, “valorização da juventude”, “civismo” e “patriotismo”.
Emenda foi criada para “dificultar” o acesso
Antes da análise do projeto, os vereadores aprovaram uma emenda apresentada por Felipe Hort, do Novo.
A alteração determina que o interessado esteja matriculado em curso formal de ensino ou de qualificação profissional. Como alternativa, deverá comprovar que procura emprego, por meio de inscrição e acompanhamento junto ao Sistema Nacional de Emprego, o Sine.
A emenda foi aprovada por nove votos a dois. Apenas André Rezini e Valdir Hinselmann votaram contra. O resultado consta no relatório oficial de votações da Câmara.
Felipe Hort deixou claro que o objetivo era tornar o acesso ao benefício mais difícil.
“O objetivo da emenda é que, se esse projeto for aprovado, aquele atirador que pleitear essa bolsa esteja em busca ativa de emprego”, afirmou.
O vereador lembrou que havia 284 vagas de trabalho cadastradas no Sine e argumentou que um jovem saudável teria condições de encontrar emprego em Brusque.
Felipe também classificou como incoerente que uma cidade que defende o fim dos benefícios assistenciais criasse um novo auxílio.
“Na minha visão, é inconcebível nós, uma cidade pujante, uma cidade que realmente pleiteia o fim de todos os benefícios assistenciais, darmos aqui um benefício ou voltarmos no benefício assistencial”, declarou.
Felipe votou favoravelmente à própria emenda, mas foi contrário ao projeto principal.
Sete vereadores foram favoráveis
A “Bolsa Farda” foi aprovada em primeira votação por sete votos favoráveis e cinco contrários.
Votaram a favor Alessandro Simas, Antônio Roberto, Cacá Tavares, Joubert Lungen, Paulinho Sestrem, Pedro Neto e Rogério dos Santos.
Foram contrários André Rezini, Bete Eccel, Felipe Hort, Rick Zanata e Valdir Hinselmann. Jean Pirola e Leonardo Schmitz não tiveram votos registrados. O presidente Jean Dalmolin não votou, embora tenha defendido publicamente a aprovação da proposta.
A divisão mostra que a discussão não seguiu a separação tradicional entre esquerda e direita. Bete Eccel, do PT, votou contra, enquanto Paulinho Sestrem e Pedro, ambos do PL, apoiaram a criação do auxílio proposto pelo prefeito, também do PL.
Orgulho de reduzir o Bolsa Família, mas apoio à nova bolsa
Uma das contradições mais explícitas apareceu na fala de Joubert Lungen. O vereador reconheceu que, para parte dos brusquenses, seria motivo de orgulho reduzir o número de famílias atendidas pelo Bolsa Família. Logo depois, defendeu a necessidade de o município manter um programa destinado a dar dignidade às famílias vulneráveis dos jovens do Tiro de Guerra.
“Eu sei que, para nós, brusquenses, é um orgulho estar reduzindo o Bolsa Família”, afirmou Joubert.
O vereador argumentou que algumas empresas podem evitar a contratação de jovens que precisam conciliar o trabalho com os horários do Tiro de Guerra. Também citou dificuldades de transporte e defendeu que a lei exista para amparar quem eventualmente necessitar dos R$ 200.
“É melhor a gente ter um projeto que possa amparar lá na frente e não precisar usar, mas, se precisar usar, tenha o projeto que ampara”, declarou.
A lógica apresentada reconhece algo que o discurso contrário aos programas sociais frequentemente tenta esconder: nem sempre a existência de vagas significa que toda pessoa vulnerável conseguirá emprego imediatamente ou poderá conciliar o trabalho com suas demais obrigações.
Paulinho muda o nome da bolsa
Paulinho Sestrem, do PL, encontrou uma saída principalmente semântica.
O vereador afirmou que não considera o pagamento uma bolsa, pois a palavra poderia transmitir a impressão de que os jovens ingressariam no Tiro de Guerra somente para receber o dinheiro. Para Paulinho, o benefício deveria ser tratado como uma “ajuda de custo”.
A alteração do nome, entretanto, não muda o funcionamento da política pública. Continuam sendo R$ 200 mensais provenientes dos cofres públicos, destinados a pessoas selecionadas conforme a renda familiar e a situação de vulnerabilidade.
Quando a palavra “bolsa” causa desconforto ideológico, basta substituí-la por “ajuda de custo”.
Vereador do PL citou Bolsonaro para defender o auxílio
Pedro, também do PL, apresentou uma defesa baseada nos valores conservadores e nas obrigações impostas aos jovens do Tiro de Guerra.
O vereador destacou que o serviço exige frequência, disciplina, apresentação pessoal, conservação do uniforme e cumprimento de horários, sem o pagamento de salário.
Também lembrou que Jair Bolsonaro aumentou o Auxílio Brasil de R$ 200 para R$ 600 durante um período em que a população precisava de assistência.
“Bolsonaro aumentou o Auxílio Brasil de R$ 200 para R$ 600 quando mais precisava”, afirmou Pedro.
Segundo o vereador, os R$ 200 não seriam um prêmio pela inatividade, mas uma forma de permitir que jovens pobres continuem cumprindo o serviço militar.
“Isso não é premiar nenhuma inatividade. É estimular o jovem a assumir as responsabilidades”, declarou.
O parlamentar afirmou que, como conservador, sempre defendeu disciplina, civismo, hierarquia, patriotismo, respeito às instituições e formação moral da juventude. Por isso, votou favoravelmente ao projeto.
A argumentação pode ser legítima. O questionamento é por que essa mesma sensibilidade nem sempre aparece quando o beneficiário é uma mãe pobre, um trabalhador desempregado ou uma família atendida pelo Bolsa Família.
Presidente defende rede de apoio
Jean Dalmolin defendeu que os R$ 200 funcionariam como uma rede de apoio para impedir que jovens abandonem o Tiro de Guerra por falta de condições financeiras.
O presidente citou gastos com transporte, corte de cabelo, graxa para o coturno e manutenção do uniforme. Também afirmou que ninguém deixaria de procurar emprego por causa de um auxílio mensal de R$ 200.
“Acho bem interessante a emenda, mas quero deixar bem claro: eu não acredito que alguém vá deixar de ter um emprego registrado, com um bom salário, por causa de R$ 200”, afirmou Dalmolin durante a discussão.
Novamente, o argumento reconhece que uma ajuda financeira pode abrir oportunidades e evitar que pessoas vulneráveis abandonem atividades importantes.
É justamente esse o princípio que sustenta grande parte dos programas sociais criticados pelo campo político do qual a maioria dos defensores do projeto faz parte.
Rick e Valdir mantiveram o discurso contra auxílios
Rick Zanata, do Novo, votou contra e afirmou que considera a proposta mais uma forma de assistencialismo.
O vereador relatou o caso de uma mulher que teria pedido emprego em sua empresa, mas não queria ser registrada por medo de perder o Bolsa Família. A partir do exemplo, declarou que votaria contra qualquer projeto que criasse um novo auxílio.
“A gente está fazendo mais um projeto aqui na cidade de Brusque de assistencialismo, e eu acho que assistencialismo o Brasil já tem até demais”, afirmou Rick.
O vereador argumentou que os jovens possuem saúde e vigor físico para trabalhar e disse que seria possível conseguir os R$ 200 lavando carros, capinando ou realizando outras atividades durante algumas horas em um sábado.
“Se ele lavar duas caminhonetes aqui em Brusque num sábado de manhã, ele vai arrecadar R$ 200 para comprar a graxa, cortar o cabelo e suprir essas necessidades”, declarou.
Rick também alertou que a criação do benefício poderia abrir espaço para reivindicações de outros grupos vulneráveis, citando como exemplo as mães solo.
“Vai chegar o grupo de mães solo que tem que sustentar o filho sozinha e vai perguntar: vocês criaram um auxílio para um jovem servir o Tiro de Guerra, por que não vão criar um auxílio para mim?”, questionou.
Valdir Hinselmann, do PL, também votou contra. Ele afirmou que empresários o procuraram para questionar a concessão do auxílio diante da existência de vagas abertas nas empresas da cidade.
“Vocês vão aprovar mais auxílio, e auxílio a jovem com vigor e saúde, enquanto eu estou aqui na empresa precisando de mão de obra?”, relatou o vereador ao reproduzir a manifestação que teria recebido de empresários.
Como alternativa, Valdir sugeriu a criação de um programa para aproximar os jovens do Tiro de Guerra dos empregadores.
Quem poderá receber
Além das exigências incluídas pela emenda de Felipe Hort, o projeto estabelece critérios relacionados à renda familiar e à vulnerabilidade econômica.
O beneficiário também deverá cumprir as regras disciplinares do Tiro de Guerra, sem faltas injustificadas ou punições que impeçam o pagamento.
Não se trata, portanto, de um pagamento universal destinado a todos os integrantes do Tiro de Guerra. É uma política assistencial focalizada, baseada na renda e na comprovação de vulnerabilidade.
Exatamente como ocorre com outros programas sociais.
O problema não são os R$ 200
É perfeitamente possível defender que um jovem pobre precise dos R$ 200 para pagar transporte, cuidar do uniforme, cortar o cabelo e cumprir as obrigações do serviço militar.
O valor pode fazer diferença para uma família vulnerável. Também pode impedir que o jovem abandone uma atividade por falta de condições financeiras.
A questão é a régua política utilizada.
Se a vulnerabilidade é suficiente para justificar uma transferência mensal aos jovens do Tiro de Guerra, ela também deveria ser reconhecida quando atinge mães, crianças, desempregados e famílias atendidas por programas federais.
O prefeito André Vechi, do PL, costuma sustentar um discurso crítico aos auxílios assistenciais e de defesa do emprego como principal política social. Mas foi sua própria administração que encaminhou à Câmara a criação da “Bolsa Farda”.
A Câmara ainda terá a oportunidade de confirmar ou rejeitar a decisão. O projeto foi aprovado somente em primeira discussão e votação e precisa passar por uma segunda análise do plenário.
Por enquanto, a votação deixou uma conclusão política.
Em Brusque, o problema não parece ser exatamente receber dinheiro do Estado. O incômodo depende de quem recebe.
Quando o recurso vai para uma família do Bolsa Família, fala-se em dependência. Quando parte de uma Prefeitura comandada pelo PL e chega a um jovem de farda, passa a ser chamado de incentivo, oportunidade e patriotismo.




