A retirada da ciclofaixa de um trecho da Avenida Primeiro de Maio, em Brusque, traz novamente a discussão sobre mobilidade urbana, segurança viária e uso do espaço público em uma das principais vias de acesso ao município. Após a aplicação de uma nova camada de asfalto, a sinalização da pista foi refeita, mas a ciclofaixa não foi reimplantada.
Em entrevista a uma rádio local, o secretário da Secretaria de Trânsito e Mobilidade, Thomas Haag, afirmou que a ciclofaixa não será recolocada neste momento. Segundo ele, a decisão foi tomada após avaliação técnica sobre a largura da estrutura anteriormente existente no local.
De acordo com Haag, a legislação exige largura mínima de 1,70 metro para ciclofaixa. No caso da Primeiro de Maio, embora a estrutura tivesse essa medida nominalmente, o espaço útil seria menor por causa das canaletas e da própria pintura, ficando entre 1,40 metro e 1,50 metro.
“A ciclofaixa criava uma falsa sensação de segurança para o ciclista”, afirmou o secretário durante a entrevista. Segundo ele, técnicos relataram situações em que, ao se cruzarem, duas bicicletas não conseguiam permanecer dentro da faixa, fazendo com que uma delas invadisse a pista de rolamento.
Leia também
Haag também destacou que a avenida Primeiro de Maio é uma via arterial, com grande circulação de veículos pesados, incluindo caminhões e transporte de cargas. Para o secretário, a característica da via precisa ser considerada antes da implantação de estruturas cicloviárias.
“A Primeiro de Maio hoje é uma via arterial que coleta boa parte do nosso tráfego pesado. O entendimento técnico que a gente tem hoje é que essa ciclofaixa causa mais insegurança do que segurança”, declarou.
O secretário negou que a decisão represente uma escolha contra os ciclistas. Ele afirmou ser favorável às ciclofaixas, mas defendeu que elas sejam implantadas em locais adequados, principalmente em ruas internas dos bairros e como forma de integração com futuros terminais urbanos.
“Não é uma questão de valorizar um modal em detrimento do outro. Eu, particularmente, sou adepto da ciclofaixa, mas acredito que a ciclofaixa tem que ligar muito mais as ruas vicinais de um bairro e ser um artifício intermodal”, disse.
Apesar da retirada no trecho já asfaltado, Haag afirmou que outros pontos da avenida ainda serão avaliados conforme o avanço das obras de drenagem e a elaboração dos projetos de sinalização. Ele não descartou soluções futuras, mas disse que elas dependerão do espaço útil disponível após a conclusão das obras.
“O que está fora da lei, sim, será revisto. Agora, nada impede que lá na frente a gente consiga achar uma solução técnica”, afirmou.
A decisão também ganhou apoio do Sindilojas Brusque. Em ofício encaminhado ao prefeito municipal, a entidade manifestou posicionamento favorável à retirada da ciclofaixa da avenida Primeiro de Maio.
No documento, assinado pelo presidente Fernando Walendowsky, o sindicato afirma que a via é um dos principais acessos a Brusque, atrás apenas da Rodovia Antônio Heil e da Rodovia Ivo Silveira, e tem papel estratégico na ligação com municípios do Vale do Rio Tijucas.
O Sindilojas argumenta ainda que a Primeiro de Maio passou a receber maior fluxo de veículos por causa dos congestionamentos frequentes na BR-101, especialmente entre Itajaí e Itapema. Para a entidade, a avenida se consolidou como corredor importante para o deslocamento de pessoas, mercadorias e serviços.
A manifestação também cita limitações geográficas da via, inserida em áreas de relevo acidentado, o que dificultaria ampliações da pista de rolamento. Segundo o sindicato, o espaço viário disponível precisa ser usado de forma racional para garantir fluidez, segurança e mobilidade.
O ofício sustenta que a demanda de ciclistas observada durante os anos de implantação da ciclofaixa seria reduzida em comparação ao volume diário de automóveis, motocicletas, ônibus e caminhões. A entidade também afirma que os tachões usados para delimitar a estrutura eram alvo de críticas, principalmente de motociclistas, por supostamente aumentarem riscos em manobras de emergência e desvios.
“Diante dessas considerações, o Sindilojas Brusque manifesta seu apoio à retirada da ciclofaixa da Avenida Primeiro de Maio e à destinação do espaço recuperado para a ampliação da capacidade operacional da via”, diz o documento.
Defensor da retirada das ciclofaixas no passado, o empresário Luciano Hang também se manifestou sobre o tema. Para ele, a mudança atende a uma demanda da sociedade.
“Acho que foi uma demanda da sociedade. Se você notar, depois da ciclofaixa acabou com a Primeiro de Maio. Todo o lado direito acabou com o serviço e comércio, a rua ficou feia e abandonada. Diferente da rua Santos Dumont, que na época a sociedade não deixou fazer. Onde tem ciclofaixa acaba com um lado da rua e desvaloriza tudo”, declarou Hang.
Do outro lado, a retirada da estrutura motivou a mobilização de moradores e ciclistas. Paulo Castellain lidera o Movimento Ciclofaixa Fica, criado para defender a permanência da ciclofaixa na avenida Primeiro de Maio.
O grupo sustenta que a via é utilizada diariamente por ciclistas e que a retirada da estrutura reduz a segurança de quem depende da bicicleta para deslocamento, trabalho ou lazer. A mobilização defende que o poder público dialogue com a comunidade antes de eliminar a estrutura de forma definitiva.
Durante a entrevista, o próprio secretário Thomas Haag reconheceu a legitimidade do movimento e disse que a Setram está aberta ao diálogo.
“É legítimo o movimento e estamos abertos a discutir, receber o movimento, para entender as reivindicações”, afirmou.
A retirada da ciclofaixa expõe uma discussão maior sobre o modelo de mobilidade urbana que Brusque pretende adotar nos próximos anos. De um lado, comerciantes e parte dos motoristas defendem mais fluidez em uma via considerada estratégica para o trânsito regional. De outro, ciclistas e defensores da mobilidade ativa cobram segurança e espaço para quem utiliza meios alternativos de transporte.
Enquanto a sinalização definitiva avança no trecho asfaltado, o futuro das demais ciclofaixas da cidade também poderá entrar em avaliação. Segundo o secretário, estruturas consideradas fora das normas técnicas poderão ser revistas.
Ex-prefeito Paulo Eccel critica retirada e fala em “prejuízo ao patrimônio público”
O ex-prefeito Paulo Eccel, responsável pela implantação das ciclofaixas em Brusque durante sua gestão, entre 2010 e 2011, criticou duramente a decisão da atual administração de não reimplantar a estrutura na avenida Primeiro de Maio após a nova camada de asfalto.
Em declaração ao Olhar do Vale, Eccel contestou a justificativa apresentada pelo secretário de Trânsito e Mobilidade, Thomas Haag, de que a ciclofaixa anterior não atenderia às medidas adequadas de segurança.
“Não tem nada a ver essa informação desse secretário aí. É historinha para boi dormir”, afirmou o ex-prefeito.
Segundo Eccel, a retirada da ciclofaixa representa um retrocesso na política de mobilidade urbana do município. Ele argumenta que estruturas semelhantes são comuns em cidades de Santa Catarina, do Brasil e do mundo, e acusa a atual gestão de desmontar um equipamento público já existente.
“Tu vai em qualquer cidade de Santa Catarina, em qualquer lugar do planeta, tu encontra ciclofaixa. E aqui eles estão tirando para atender favores”, declarou.
O ex-prefeito também afirmou que houve investimento público na implantação da estrutura, com pintura especial, placas e tachões. Para ele, a remoção desses elementos pode configurar prejuízo ao patrimônio público.
“Tinha um equipamento público, foi gasto dinheiro com esse equipamento público, agora eles simplesmente retiraram esse equipamento público, tiraram as placas, tiraram os tachões, tinha uma pintura especial, então estão causando, de fato, prejuízo”, disse.
Eccel ainda defendeu que a empresa responsável pelas obras de macrodrenagem teria obrigação de recompor a sinalização existente após a intervenção na via. Na avaliação dele, a não reposição da ciclofaixa pode ser questionada pelos órgãos de controle.
“A empresa que fez a tubulação da macrodrenagem tinha a obrigação de repor essa sinalização. Isso é explícito, escancarado, improbidade administrativa. Eu espero que, de fato, o Ministério Público tome providências em relação a isso”, afirmou.
O ex-prefeito também citou a possibilidade de cidadãos ingressarem com ação popular contra a retirada da estrutura. Para ele, a medida coloca em risco a segurança de ciclistas que utilizam a avenida Primeiro de Maio diariamente.
“Cidadãos também podem manejar ação popular contra essa arbitrariedade e esse atraso que o governo da direita está impondo a Brusque, não se preocupando com a vida das pessoas”, declarou.
Eccel fez ainda um alerta sobre possíveis consequências da retirada da ciclofaixa.
“O volume de acidentes vai aumentar na Primeiro de Maio. Os ciclistas serão alvos, nós teremos óbitos, infelizmente, em função dessa medida”, concluiu.





