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Cidade sem comando? Prefeito e vice ficam fora de Brusque por cinco dias e Prefeitura empenha R$ 10,6 mil para viagem a Brasília

Portal da Transparência registra R$ 5.333,64 para André Vechi e R$ 5.333,64 para Deco Batisti em adiantamento com despesas de diária; Prefeitura foi questionada desde quarta-feira, mas mantém silêncio.

Foto: Agência Senado.

A pergunta que Brusque precisa fazer não é apenas se o prefeito André Vechi e o vice-prefeito André “Deco” Batisti podiam deixar a cidade ao mesmo tempo. A pergunta principal é outra: era necessário? E mais: era razoável que a Prefeitura empenhasse dinheiro público para custear despesas de uma viagem a Brasília em uma agenda de forte peso político?

Registros do Portal da Transparência da Prefeitura de Brusque apontam que prefeito e vice tiveram despesas empenhadas para o período de 2 a 6 de maio, em roteiro de Brusque a Brasília. Cada um teve R$ 5.333,64 registrados como “adiantamento com despesas de diária”. Somados, os valores chegam a R$ 10.667,28.

No caso do prefeito André Vechi, o Portal da Transparência registra R$ 5.333,64 em adiantamento com despesas de diária para o roteiro Brusque/SC x Brasília/DF, referente ao período de 2 a 6 de maio de 2026. O mesmo valor, R$ 5.333,64, também aparece vinculado ao vice-prefeito André “Deco” Batisti, no mesmo período e com o mesmo destino.

A justificativa registrada no Portal da Transparência informa que o deslocamento ocorreu para “participar de agenda institucional no Congresso Nacional”, com a finalidade de “tratar de pautas estratégicas de interesse do município”, “promover articulações junto a órgãos federais” e “realizar reuniões com lideranças políticas e institucionais para o fortalecimento das demandas municipais”.

O período coincide com a agenda em Brasília para acompanhar a posse do empresário brusquense Hermes Klann como senador da República, realizada na terça-feira, 5 de maio, no Senado Federal. Klann assumiu temporariamente a cadeira de Jorge Seif, que se licenciou do mandato por quatro meses. O fato tem relevância política para Santa Catarina e, sem dúvida, coloca Brusque em evidência no cenário nacional. Mas uma cidade não pode ser governada por simbolismo.

Enquanto autoridades aparecem em agendas políticas na capital federal, Brusque segue com problemas concretos: filas na saúde, obras paradas, questionamentos sobre gastos públicos, reclamações sobre infraestrutura, denúncias envolvendo setores da administração municipal e uma população que cobra respostas no dia a dia.

O ponto central não é a posse de Hermes Klann. O ponto central é a escolha política da administração municipal. Quando o prefeito se ausenta, espera-se que o vice esteja à disposição da cidade. Quando os dois saem juntos, por cinco dias, a pergunta se impõe: quem ficou, politicamente, no comando?

A Lei Orgânica de Brusque permite que prefeito e vice se ausentem por até 15 dias consecutivos sem autorização prévia da Câmara. Ou seja: a discussão aqui não é simplesmente sobre legalidade. A discussão é sobre prioridade, prudência administrativa, responsabilidade política e respeito ao dinheiro público.

E esse debate ficou ainda mais relevante porque os registros disponíveis no Portal da Transparência apontam o empenho de R$ 10.667,28 em adiantamentos de diárias para a viagem. Foram R$ 5.333,64 para André Vechi e R$ 5.333,64 para Deco Batisti.

Se havia interesse institucional do município na agenda, a Prefeitura precisa explicar qual foi esse interesse. Se havia justificativa administrativa para a presença simultânea do prefeito e do vice em Brasília, a população tem o direito de conhecê-la. Se houve adiantamento com dinheiro público, o cidadão tem o direito de saber por que os dois precisaram se deslocar ao mesmo tempo e quais resultados concretos a viagem trouxe para Brusque.

A Prefeitura de Brusque, porém, mantém silêncio sobre o caso. O Olhar do Vale encaminhou questionamentos ao diretor de Comunicação da administração municipal na última quarta-feira, perguntando quem ficou formalmente responsável pela condução administrativa do município durante a ausência simultânea do prefeito André Vechi e do vice Deco Batisti, qual foi a justificativa oficial para a viagem dos dois ao mesmo tempo e se houve custo público relacionado ao deslocamento. Até a publicação deste texto, não houve resposta.

A falta de resposta também comunica. Em temas sensíveis, especialmente quando envolvem dinheiro público, o silêncio da administração municipal impede que a população tenha acesso à versão oficial e reforça a necessidade de fiscalização por parte da imprensa.

Não se trata de desmerecer a posse de Hermes Klann. Brusque ter um representante no Senado é um fato político relevante. O problema é transformar uma agenda política em deslocamento custeado pelo poder público sem a devida explicação à sociedade.

Brusque precisa de representação em Brasília, mas também precisa de comando em casa. Precisa de prefeito presente, de vice disponível e de uma administração que responda aos questionamentos quando dinheiro público está envolvido.

A capital federal rende fotos, discursos e articulações. Mas os problemas que afetam a vida do cidadão continuam aqui: nas filas, nas obras, nos bairros, nas unidades de saúde, nas contas públicas e nos serviços que dependem de gestão diária.

A posse de um senador brusquense pode ser motivo de orgulho. Mas orgulho institucional não pode virar salvo-conduto para transformar a Prefeitura em extensão de agenda política.

Brusque não elegeu prefeito e vice para serem espectadores de cerimônias em Brasília. Elegeu para governar a cidade. Quando os dois deixam o município ao mesmo tempo, permanecem fora por cinco dias, têm R$ 10.667,28 empenhados em adiantamentos de diária e a administração mantém silêncio diante de perguntas objetivas, a questão deixa de ser apenas política e passa a ser uma obrigação jornalística:

Brusque ficou sem comando?

Perguntas sem resposta:

O Olhar do Vale encaminhou diversas perguntas ao Diretor de Comunicação da Prefeitura de Brusque sobre o fato. Confira quais as perguntas foram enviadas:

Solicitamos informar se a viagem do prefeito André Vechi e do vice-prefeito Deco Batisti a Brasília, nos dias 4 e/ou 5 de maio de 2026, para acompanhar a posse do senador Hermes Klann, gerou qualquer despesa ao Município de Brusque, incluindo diárias, passagens aéreas, combustível, veículo oficial, motorista, hospedagem, alimentação, adiantamentos ou reembolsos. Solicitamos também informar se houve transmissão formal de comando durante a ausência simultânea do prefeito e do vice, bem como encaminhar cópia dos atos, empenhos, autorizações, roteiros de viagem e prestações de contas eventualmente existentes.

As perguntas permanecem sem respostas.

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