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Sem saber o custo, Paulinho defende 39 cargos de R$ 1,63 milhão por ano com pesquisa sem metodologia e se irrita com questionamento do Olhar do Vale

O projeto foi aprovado pela maioria dos vereadores.

O líder do governo, Paulinho Sestrem (PL). Foto:o Aline Bortoluzzi Câmara Brusque

O vereador Paulinho Sestrem (PL), líder do governo na Câmara de Brusque, saiu em defesa do Projeto de Lei Complementar nº 2/2026 e da estrutura das escolas cívico-militares, mas esbarrou em uma pergunta básica: quanto custa tudo isso.

Durante a entrevista, Paulinho defendeu os 39 cargos ligados ao programa, estrutura que representa R$ 136,4 mil por mês e R$ 1,63 milhão por ano em vencimentos-base. Ao ser questionado sobre o impacto financeiro, porém, admitiu que não tinha o valor “de cabeça”.

Sem saber o custo, Paulinho defende 39 cargos de R$ 1,63 milhão por ano com pesquisa sem metodologia e se irrita com questionamento do Olhar do Vale
Infográfico: Olhar do Vale

O vereador afirmou que os cargos são necessários por causa da ampliação do programa para mais escolas e disse que a medida representa investimento em qualidade de ensino, não inchaço da folha. Também afirmou que a maior parte das vagas deve ser ocupada por militares da reserva.

A entrevista, porém, subiu de tom quando ele foi pressionado sobre a pesquisa usada para justificar o programa. Sem apresentar os dados no momento da conversa, Paulinho reagiu: “Está querendo me derrubar, mas está tudo certo, né?”.

Sem saber o custo, Paulinho defende 39 cargos de R$ 1,63 milhão por ano com pesquisa sem metodologia e se irrita com questionamento do Olhar do Vale
Relatório de votação/Câmara Brusque

O Projeto de Lei Complementar nº 2/2026 foi aprovado pela Câmara de Brusque no dia 10 de março. O relatório de votação aponta 12 votos favoráveis, 1 contrário e 2 não registrados. O voto contrário foi da vereadora Bete Eccel. Já os vereadores Leonardo Schmitz (não estava por motivo de saúde) e Rogério dos Santos aparecem no relatório como não registrados.

A proposta altera a Lei Complementar nº 396, de 23 de janeiro de 2024, para instituir e disciplinar o cargo de Assessor de Planejamento no âmbito do Programa Municipal de Escolas Cívico-Militares. Na prática, a matéria mexe em uma estrutura que já vem sendo defendida pelo governo como parte da expansão do modelo na rede municipal.

O programa de escolas cívico-militares foi criado com o argumento de melhorar a gestão escolar, fortalecer a disciplina, reduzir a violência no ambiente escolar e ampliar a participação das famílias no cotidiano das unidades de ensino.

Na prática, a proposta prevê atuação conjunta entre profissionais da educação e militares da reserva. Entre as ações previstas estão atividades cívicas, palestras, práticas disciplinares, ações culturais e o chamado Projeto Valores, voltado a temas como civismo, respeito, honestidade e dedicação.

A prefeitura também usa números internos para sustentar a defesa do programa. Gráficos divulgados pela Secretaria de Educação apontam aprovação ampla nas quatro escolas onde o modelo já foi implantado. Segundo o material, 83,1% avaliaram a implantação como positiva ou muito positiva, 93,6% disseram que o programa ajudou a reduzir a violência e 89,5% apontaram melhora no ambiente escolar.

Outros 87,1% disseram ter percebido melhora na relação entre alunos e profissionais da educação. Já 79% apontaram avanço no processo de ensino-aprendizagem. No campo simbólico, 96,3% afirmaram que uniforme e identidade visual reforçam o sentimento de pertencimento.

Apesar dos números favoráveis, o material divulgado pela prefeitura não traz os elementos básicos de uma pesquisa técnica. Não há metodologia detalhada, margem de erro, período de coleta, critério de amostragem, taxa de resposta nem formulário completo.

Além disso, há divergência nos próprios dados apresentados. Enquanto o texto institucional fala em 729 participantes, alguns gráficos mostram 735 respostas, outros 609, 608 e vários 124. Na prática, o conteúdo funciona mais como uma enquete institucional do que como uma pesquisa técnica.

No campo financeiro, os números também chamam atenção. Pela tabela remuneratória da prefeitura, cada cargo comissionado na faixa CC-VI, sigla usada para identificar o nível salarial desse tipo de função de livre nomeação, tem vencimento-base de R$ 3.498,38. Considerando 39 cargos nessa faixa, o custo chega a R$ 136.436,82 por mês e R$ 1.637.241,84 por ano em vencimentos-base.

A soma reforça o peso da estrutura defendida pelo governo. E foi justamente sobre esse ponto que o líder governista não conseguiu dar resposta objetiva.

No fim das contas, a discussão sobre as escolas cívico-militares em Brusque deixa de ser apenas pedagógica. Ela passa também pela conta que cai na folha, pela fragilidade dos dados apresentados como justificativa e pela reação irritada de quem foi encarregado de defender o projeto.

Escute a entrevista em áudio na íntegra:

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