Uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público de Santa Catarina levou ao Judiciário suspeitas de uso irregular de cargos comissionados no Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto de Brusque, o Samae.
O processo foi ajuizado pela 3ª Promotoria de Justiça de Brusque contra a autarquia e dois servidores comissionados: Maricela Andrade Santos e Luciano Bizarri. O Ministério Público pediu, em caráter de urgência, a exoneração imediata dos dois.
Antes que a Justiça analisasse o pedido, porém, a Prefeitura de Brusque informou no processo que ambos já haviam sido exonerados.
As exonerações foram formalizadas pelas portarias nº 17.970 e nº 17.971, assinadas em 13 de julho pelo prefeito André Vechi. Os atos passaram a produzir efeitos na mesma data.
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Maricela ocupava o cargo comissionado de assessora de Controle de Perdas, enquanto Luciano era chefe de Operações da Área Técnica do Samae. As portarias apenas formalizam as exonerações e não apresentam os motivos das decisões.
Apesar da saída dos servidores, a assessoria de imprensa do Ministério Público confirmou ao Olhar do Vale que a ação continua em andamento.
“Apesar das exonerações, a ação ainda segue em curso”, informou o órgão.
Até o momento, não houve decisão judicial reconhecendo definitivamente a existência das irregularidades apontadas. As afirmações fazem parte da ação apresentada pelo Ministério Público e ainda poderão ser contestadas pelos envolvidos.
Investigação começou na Casa-Lar
A apuração começou após a abertura de um inquérito civil para investigar um possível desvio de função envolvendo Maricela, que anteriormente ocupava o cargo comissionado de assessora de Políticas de Alta Complexidade da Prefeitura.
Segundo o Ministério Público, apesar de estar formalmente nomeada para uma função de assessoramento, ela teria desempenhado atividades típicas de cuidadora na Casa-Lar de Brusque, inclusive trabalhando em regime de plantão.
Diante da situação, o MP recomendou que o Município retirasse a servidora das atividades consideradas incompatíveis com o cargo e evitasse colocá-la novamente em funções operacionais.
A Prefeitura informou inicialmente que havia acolhido a recomendação e que Maricela não trabalharia mais na Casa-Lar. Posteriormente, comunicou que ela havia sido exonerada do cargo na Assistência Social.
Entretanto, conforme a ação, o Município não informou naquele momento que a servidora havia sido nomeada, um dia antes, para outro cargo comissionado no Samae.
Para o Ministério Público, essa informação era relevante e deveria ter sido apresentada na resposta encaminhada à Promotoria.
Na ação, o órgão afirma que a Prefeitura teria transmitido a impressão de que a recomendação havia sido integralmente cumprida, mas deixou de mencionar a nova nomeação. Essa é uma alegação do Ministério Público, que ainda será analisada judicialmente.
Atendimento durante a madrugada
Maricela foi inicialmente nomeada para o cargo de assessora de Assuntos Institucionais do Samae. Poucos dias depois, a nomeação foi alterada, e ela passou a ocupar o cargo comissionado de assessora de Controle de Perdas.
Segundo as informações encaminhadas pela autarquia ao MP, a servidora tomou posse em 15 de junho e passou a trabalhar no período noturno.
Em depoimento reproduzido na ação, Maricela declarou que trabalhava das 22h às 5h30, recebendo ligações de moradores, registrando solicitações no sistema e encaminhando os pedidos para as equipes responsáveis pelos serviços.
Ela informou que recebia aproximadamente oito a dez chamadas por noite, principalmente relacionadas à falta de água, religação ou rompimento de tubulações.
Para o Ministério Público, essas atividades seriam de atendimento e execução operacional, sem correspondência com as atribuições de assessoramento previstas para o cargo comissionado.
O MP sustenta que, em vez de corrigir o primeiro suposto desvio de função, ocorrido na Casa-Lar, a administração teria apenas transferido a servidora para outro cargo no qual ela continuou realizando atividades consideradas incompatíveis.
Chefe afirmou que trabalhava no almoxarifado
A investigação também alcançou Luciano Bizarri, que ocupava o cargo comissionado de chefe de Operações da Área Técnica do Samae.
De acordo com a ação, o cargo previa atribuições de chefia das operações técnicas, acompanhamento de instalações, equipamentos, serviços e logística da área.
Entretanto, Luciano declarou ao Ministério Público que trabalhava no almoxarifado, realizando controle de estoque, pedidos de compras, entrega de peças e auxílio em estudos técnicos para licitações.
Ainda segundo o depoimento registrado na ação, ele afirmou que, na prática, não exercia função de chefia e que era orientado por um servidor efetivo.
Luciano também teria dito que não sabia informar exatamente o que Maricela fazia no Samae e que ficou sabendo do retorno dela à autarquia quando foi chamado para depor no Ministério Público.
Com base nesses relatos, o MP entendeu que os dois ocupavam cargos comissionados, mas desempenhavam atividades operacionais ou administrativas diferentes das funções previstas em lei.
MP fala em possível burla ao concurso público
Na ação, o Ministério Público argumenta que cargos comissionados devem ser destinados exclusivamente às funções de direção, chefia e assessoramento.
Para o órgão, atividades permanentes, técnicas, burocráticas ou operacionais devem ser exercidas, como regra, por servidores aprovados em concurso público.
O MP sustenta que a utilização de comissionados para essas tarefas representaria uma possível violação à regra constitucional do concurso público e aos princípios da moralidade administrativa.
Além da exoneração dos dois servidores, a Promotoria pediu que o Samae fosse proibido de utilizar os cargos de assessora de Controle de Perdas e chefe de Operações da Área Técnica para atividades operacionais.
Em caso de descumprimento, foi solicitada a aplicação de multa diária de R$ 10 mil.
Exonerações ocorreram antes da análise do pedido
Segundo a assessoria do Ministério Público, o pedido de urgência ainda não havia sido analisado quando o Município protocolou, em 13 de julho, a informação de que os dois servidores já estavam exonerados.
Com isso, a saída dos comissionados ocorreu por decisão administrativa, e não por uma ordem judicial.
A exoneração, por si só, também não representa reconhecimento de culpa ou confirmação automática das irregularidades narradas na ação.
O processo seguirá para a análise dos demais pedidos, incluindo a discussão sobre a forma como os cargos comissionados vinham sendo utilizados no Samae.
O Olhar do Vale mantém o espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Brusque, do Samae e dos dois ex-servidores citados na ação.




