O show de Michel Teló no aniversário de Brusque ganhou um novo capítulo e ele está longe da propaganda de “evento gratuito”. Em apuração exclusiva, o Olhar do Vale localizou no Portal Nacional de Contratações Públicas, o PNCP, o contrato nº 005/2026, firmado entre a Fundação Municipal de Turismo de Brusque e a empresa Teló Shows Ltda. O documento aponta valor global de R$ 400 mil para a contratação artística do cantor no dia 3 de agosto de 2026, em comemoração aos 166 anos do município.
A informação contrasta com declaração pública do prefeito André Vechi. Em declarações para a imprensal local, o prefeito afirmou que o show custaria cerca de R$ 350 mil, “um pouco mais ou um pouco menos”, indicando que ainda poderia confirmar o valor. A diferença entre a fala pública e o contrato oficial é de R$ 50 mil.
Em dinheiro público, R$ 50 mil não cabem na categoria de “mais ou menos”. Ou o show custa R$ 350 mil, ou custa R$ 400 mil, ou existe um documento formal explicando a diferença. Até o fechamento desta reportagem, o Olhar do Vale não localizou no PNCP termo aditivo, apostilamento, retificação ou qualquer documento que reduza o valor global de R$ 400 mil previsto no contrato.
Também não foi localizado, no Portal da Transparência de Brusque, empenho, liquidação ou pagamento vinculado à contratação da Teló Shows Ltda. O contrato, no entanto, menciona que as despesas decorrentes da inexigibilidade serão pagas com recursos indicados no Parecer Contábil nº 365/2026, subelemento 33903999.
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Show gratuito? Só na entrada
A Prefeitura pode até apresentar o evento como gratuito para o público, já que não há cobrança de ingresso. Mas o contrato mostra outra realidade: a conta existe, tem valor definido e será paga com dinheiro público. Quando a Prefeitura paga, quem paga é o contribuinte. O documento oficial aponta R$ 400 mil apenas para a contratação artística de Michel Teló. O show terá duração prevista de 1h30, ou 90 minutos. Na prática, o contrato representa cerca de R$ 4,4 mil por minuto de apresentação.
Outro ponto que chama atenção é que o valor de R$ 400 mil se refere à contratação do artista, não necessariamente ao custo total da festa. O contrato prevê que a Teló Shows Ltda. ficará responsável pelo cachê do artista, equipe e banda, além de despesas como alimentação, transporte interestadual, hospedagem e transporte local do artista e da equipe.
Por outro lado, o mesmo contrato estabelece uma série de obrigações para a Prefeitura de Brusque. Entre elas estão emitir nota de empenho, acompanhar e fiscalizar a execução do contrato, disponibilizar local adequado, palco, dois camarins, equipamentos de som, iluminação, gerador de energia, segurança profissional, oito carregadores e pagamento de valores relacionados ao ECAD, que entidade responsável por arrecadar e distribuir direitos autorais quando músicas são executadas publicamente em shows, festas, eventos, rádios, bares, TVs, plataformas, ambientes comerciais etc.
Ou seja: os R$ 400 mil são apenas uma parte da história. A pergunta que a Prefeitura precisa responder é simples: quanto o show de Michel Teló vai custar de verdade ao contribuinte quando toda a estrutura for colocada na conta?
Prefeitura não responde e manda jornalista esperar prazo da LAI
O Olhar do Vale encaminhou questionamentos à Prefeitura de Brusque para esclarecer a divergência entre os R$ 350 mil citados publicamente pelo prefeito e os R$ 400 mil previstos no contrato publicado no PNCP.
A reportagem também perguntou se existe aditivo, retificação, desconto ou documento posterior reduzindo o valor, qual é o número da nota de empenho, se o empenho já foi emitido e qual será o custo total do evento, incluindo palco, som, iluminação, gerador, camarins, segurança, carregadores, ECAD, banheiros, divulgação e demais despesas.
Após orientação da própria assessoria de imprensa da Prefeitura, as perguntas foram encaminhadas ao diretor de Comunicação, Nicolas Haag. A resposta, no entanto, não esclareceu nenhum dos pontos.
O diretor acusou o recebimento da mensagem, mas afirmou que o pedido enviado por aplicativo de comunicação pessoal “não constitui pedido formal de acesso à informação” e orientou que a solicitação fosse formalizada pelos canais oficiais do Serviço de Informação ao Cidadão, o SIC. Também informou que, a partir do protocolo, o prazo legal de resposta é de até 20 dias úteis, prorrogáveis por mais 10.
Na prática, a Prefeitura empurrou para a burocracia uma pergunta simples e urgente: o show custa R$ 350 mil ou R$ 400 mil?
Não tem cabimento um jornalista, diante de uma reportagem em fechamento e de um contrato público já publicado no PNCP, ter que esperar até 20 dias úteis para obter uma resposta objetiva sobre dinheiro público. A Lei de Acesso à Informação existe para garantir transparência, não para servir como escudo burocrático quando a administração é questionada pela imprensa.
O Olhar do Vale também procurou a assessoria de imprensa de Michel Teló para esclarecer o valor efetivo da contratação e eventual existência de desconto, retificação ou documento posterior.
Em resposta, a assessoria informou que não tem autorização para repassar informações sobre contrato, horários ou valores, afirmando atuar apenas na área de imprensa do artista.
Inexigibilidade
A contratação foi feita por inexigibilidade de licitação, modalidade prevista em lei para situações específicas, como a contratação de profissional do setor artístico consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública. O contrato cita como fundamento o artigo 74, inciso II, da Lei Federal nº 14.133/2021.
Isso, por si só, não significa irregularidade. Mas legalidade não encerra o debate público.
A Prefeitura precisa explicar a prioridade, o valor, a divergência de R$ 50 mil e o custo total do evento. Brusque tem demandas em saúde, infraestrutura, escolas, bairros, esporte, cultura local e serviços básicos. Mesmo assim, a gestão municipal decidiu contratar uma atração nacional por R$ 400 mil para uma apresentação de 90 minutos.
Com esse valor, seria possível reforçar atendimentos de saúde, comprar medicamentos, ampliar consultas e exames, investir em manutenção de escolas e creches, apoiar estruturas esportivas de bairro, fortalecer ações da Defesa Civil.
Contrato ainda proíbe conotação política
O contrato também traz uma cláusula relevante: a apresentação artística não poderá ter conotação política ou religiosa, nem associar a imagem do artista a essas finalidades sem consentimento da contratada.
O ponto merece atenção porque o evento será promovido pela Prefeitura e ocorrerá em ambiente público, durante as comemorações oficiais do aniversário da cidade. A administração municipal terá que garantir que o show não seja usado como palanque político ou peça de autopromoção da gestão.
O que o contrato mostra, página por página
Na página 1, o contrato identifica a Fundação Municipal de Turismo como contratante e a Teló Shows Ltda. como contratada. O objeto é a contratação de Michel Teló para show nacional no dia 3 de agosto de 2026, no aniversário de 166 anos de Brusque.
Na página 2, aparece o ponto mais forte: o valor unitário e o valor total são de R$ 400 mil. A cláusula terceira reforça que “o valor global do presente contrato é de R$ 400.000,00”. Também consta que o pagamento será feito em até 30 dias após a nota fiscal.
Na página 3, o contrato informa que o show terá duração de 1h30, com início previsto para 23h30 do dia 3 de agosto, entrando na virada para o aniversário da cidade.
Na página 5, o documento informa que a contratada arca com cachê, equipe, banda, alimentação, transporte interestadual, hospedagem e transporte local do artista e equipe.
Na página 6, aparecem obrigações da Prefeitura, incluindo estrutura e custos operacionais necessários para a realização do show. É nesse trecho que fica claro que o custo total do evento pode superar o valor da contratação artística.
Nas páginas seguintes, o contrato trata de fiscalização, recebimento dos serviços, liquidação, sanções, extinção contratual, uso de imagem e cláusulas anticorrupção. Também há vedação expressa à conotação política ou religiosa da apresentação.
Perguntas sem resposta
Até o fechamento desta reportagem, seguem sem resposta questões centrais:
- Qual é o valor oficial da contratação: R$ 350 mil ou R$ 400 mil?
- Existe documento reduzindo o valor global do contrato?
- Por que o prefeito falou em cerca de R$ 350 mil se o contrato publicado aponta R$ 400 mil?
- Onde está a nota de empenho vinculada à despesa?
- Qual será o custo total do evento, somando estrutura, palco, som, iluminação, segurança, camarins, carregadores, ECAD, banheiros, divulgação e logística?
- Quem serão os fiscais do contrato?
- A Prefeitura publicará a íntegra dos documentos financeiros ligados ao show?
O espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura de Brusque, da Fundação Municipal de Turismo e da empresa contratada.
Por enquanto, o que existe é o documento oficial. E o documento oficial mostra R$ 400 mil.
O show pode até ser vendido como gratuito na propaganda. Mas gratuito ele não é. A conta existe, começa em R$ 400 mil e pode ser ainda maior. E quem paga, mais uma vez, é o contribuinte.
Enquanto Brusque põe dinheiro público na conta do show, Guabiruba fez diferente
A contratação de Michel Teló por R$ 400 mil em Brusque vai na contramão do caminho adotado por uma cidade vizinha. Em Guabiruba, o show nacional de Marcos e Belutti, estimado em cerca de R$ 260 mil, será bancado por patrocinadores, sem desembolso direto do poder público municipal para a atração. Segundo o prefeito Valmir Zirke, os valores vão diretamente dos patrocinadores para a empresa responsável pelo show, sem passar pela conta da Prefeitura.
A comparação expõe duas escolhas políticas diferentes. Em Guabiruba, a administração buscou a iniciativa privada para viabilizar uma atração nacional sem tirar dinheiro do caixa público. Em Brusque, o contrato localizado pelo Olhar do Vale mostra que a Fundação Municipal de Turismo assumiu uma contratação artística de R$ 400 mil, e ainda terá obrigações adicionais com estrutura do evento.
Em tempos de cobrança por responsabilidade no uso do dinheiro público, a pergunta é inevitável: se uma cidade vizinha conseguiu buscar patrocinadores para uma atração nacional, por que Brusque optou por colocar a conta no colo do contribuinte?



