O embate entre o vereador Paulinho Sestrem e o Olhar do Vale ganhou novo capítulo em Brusque. Após atacar em tribuna uma reportagem publicada pelo portal sobre o déficit na Saúde, o parlamentar não se retratou, mesmo depois de ter sido procurado diretamente e de ter recebido pedido formal de retratação. Diante da ausência de recuo, o caso foi levado ao corregedor da Câmara Municipal.
Na sessão de 9 de setembro de 2025, Paulinho Sestrem exibiu no telão da Câmara a reportagem sobre o rombo na Saúde e, em seguida, passou a desqualificar o conteúdo em plenário. No discurso, afirmou que se tratava de “matéria isolada, tentando gerar o caos” e de “matéria divulgada em apenas um órgão de imprensa”. Mais adiante, disse que quem se apoia em “manchetes enviesadas” estaria “alimentando a desinformação”.
Embora o nome do Olhar do Vale não tenha sido citado verbalmente naquele momento, a identificação do veículo ficou evidente pelo contexto. A reportagem foi exposta no telão da própria Câmara, diante dos vereadores e do público, enquanto o discurso fazia referência direta ao conteúdo publicado sobre o déficit na Saúde. Para o portal, não houve simples divergência política, mas tentativa pública de desacreditar uma matéria identificável sem demonstração objetiva de falsidade.
Depois da fala em tribuna, houve tentativa de solução direta. O vereador foi procurado por WhatsApp e recebeu pedido de retratação, mas não respondeu. Na sequência, foi protocolado pedido formal na Câmara. Diante da falta de resposta material, também houve reiteração do pedido.
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A própria pauta oficial da sessão ordinária de 7 de abril de 2026 registrou a reiteração sob o Protocolo 0712/2026, em nome do Olhar do Vale, com o resumo “Reiteração de pedido de retratação pública, com requerimento de certidão sobre ausência de leitura em Expediente”. No mesmo documento, a Câmara determinou o encaminhamento ao vereador Paulinho Sestrem e à Mesa Diretora para análise e ainda marcou o item com a rubrica “Leitura”.
Apesar disso, o caso mergulhou em novo impasse. A Câmara apresentou como justificativa uma atualização do Regimento Interno promovida pela Resolução Legislativa nº 4/2023. O texto prevê leitura resumida dos documentos endereçados à Câmara e dos projetos protocolados, além de estabelecer hipóteses de dispensa de leitura em sessão para certas proposições. Ao mesmo tempo, o próprio regimento mantém a previsão de leitura do expediente com registro do despacho do presidente.
Na prática, a justificativa abriu nova controvérsia. Isso porque, embora a Câmara tenha alegado mudança regimental, a pauta oficial do próprio Legislativo registrou expressamente o protocolo do Olhar do Vale com a indicação de “Leitura”. O contraste entre a pauta publicada e a condução adotada em plenário aumentou ainda mais o desgaste institucional do episódio.“Não estamos falando de simples divergência política. Estamos falando de um vereador que usou a tribuna da Câmara para atacar uma reportagem identificável, sem provas e, mesmo depois de ser procurado de forma direta e formal, não teve a grandeza de corrigir o que disse”, afirma Anderson Vieira, diretor do Olhar do Vale.
Sem retratação e sem correção da fala, o caso avançou para a corregedoria. A representação protocolada sustenta que houve uso indevido da tribuna para desqualificar publicamente uma reportagem identificável, com atingimento da credibilidade do veículo e da reputação profissional do jornalista responsável. O pedido agora é de apuração por possível conduta incompatível com o decoro parlamentar. Neste contexto, a análise será do corregedor da Câmara, vereador Pedro Correa da Silva Neto, também do PL. O corregedor tem 15 dias da data de entrada do pedido para dar o seu parecer.
O episódio ultrapassa a disputa política. O que está em jogo é o limite entre a crítica legítima e o ataque público sem prova à atividade jornalística. Quando um vereador usa a estrutura institucional da Câmara para expor uma reportagem em telão e associá-la a desinformação, mas depois se cala diante da oportunidade formal de corrigir a fala, o problema deixa de ser apenas retórico. Passa a ser institucional.







