Unifebe Vargas TEVAH

“Nós emporcalhamos o rio e depois bebemos do rio, o Samae só limpa a água”, afirma Betinho

O diretor do Samae disse ainda que pelo projeto não poderia ter árvores ao longo da Beira-Rio

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Foto: Anderson Vieira –

Sem papas na língua. Assim podemos definir o diretor-presidente do Samae, Roberto Bolognini. Betinho, como é conhecido,  atendeu a reportagem do Olhar do Vale e não fugiu das perguntas.  Acompanhe a entrevista:

Olhar do Vale: Você reassumiu a autarquia no governo Prudêncio. Como você pegou o Samae e qual a análise que você faz nesse momento?

Roberto Bolognini: Nós vivemos um momento de incerteza política, mas não é por isso que vamos ficar só na expectativa. Estamos puxando o carro, como se diz. O nosso trabalho já está bastante adiantado e a primeira coisa que fizemos foi executar um diagnóstico para saber como estava o Samae. Você sabe que o Samae não estava bem. Todos sabem que não estava bem. Eu prefiro falar dos nossos projetos, mas só pra caracterizar o Samae na fase em que estava eu posso dizer que, na verdade, a falta de água que existia não é um problema. É a consequência da falta de gerenciamento. O problema do Samae não foi falta de água. Foi falta de gerenciamento. O Samae só não afundou por falta de água. A partir desse levantamento de dados da situação da autarquia, nós começamos a implementar pequenas ações para que resultassem numa fase de tranquilidade. Logo aí na frente vamos ter um período de alto consumo, que é o verão que já bate a nossa porta aí, nós estamos já implementando pequenas ações porque não podemos atacar radicalmente nossa estação central, por exemplo. Qualquer alteração lá irá prejudicar a produção de água, que já não é suficiente pra atender a demanda. Pra se ter uma ideia nós produzimos hoje na estação central em torno de 800 a 900 metros cúbicos de água tratada. A demanda ou o consumo chega a 1100 ou 1400. Alguém fica sem água no período de pico. Então, nós temos também um agravante que é a rede de amianto e cimento tratada implantada na década de 1960. Já tem a sua vida útil ultrapassada, já que a vida útil do amianto é de vinte anos. Já está ultrapassada e muito. Então ela rompe com frequência. E é justamente redes de grande diâmetro, Anderson. E elas estão instaladas no centro da cidade, na área mais densamente povoada, onde é difícil remover. O que o Samae está fazendo é reparar, ir lá fazer o conserto. A rede rompe e o Samae vai lá e faz o conserto, nunca substitui. A substituição de uma rede de grande porte é cara e vai causar um transtorno violento no centro da cidade. E nós já temos uma lição dessa intervenção no Centro que é a famigerada rede de manilha que foi instalada no Centro. Retalhou toda a cidade. Quando chegam com uma máquina no Centro já ficam todos de orelha em pé. Porque você vai criar um transtorno no fluxo de trânsito, que é caótico e acaba tudo isso prejudicando as pessoas. Elas reclamam. Você não pode mais fazer uma intervenção assim. No rompimento de uma rede de grande porte o tanque é facilmente esvaziado. Nós perdemos essa água, que é importantíssima para o abastecimento. E nós não temos uma resposta rápida pra isso. O que temos é uma resposta rápida na ação. É ordem. Não podemos deixar o vazamento de um dia pro outro. Nós vamos atacar no mesmo instante que somos informados.

ODV: O Samae foi notícia de uma forma negativa em relação a um possível superfaturamento em um terreno no Bairro Águas Claras. Como você viu esta situação ?

Roberto Bolognini: Quanto a este terreno, atualmente nós temos dois terrenos disponíveis naquela região e de graça. Talvez um deles seja até melhor. No momento não chegamos lá ainda. Estamos implementando ações e elaborando projetos. Nós temos que produzir água. Mas aquele terreno está descartado, até por conta dos problemas resolvidos. Mas nós temos outros terrenos naquela região aonde o cidadão vai permitir a desapropriação sem custos. Porque é interessante para um proprietário de um terreno alto, pois valoriza o terreno. O cidadão ele tem condições de fazer um loteamento no entorno, sabendo que vai ter água. Vários loteamentos estão parados porque não teremos como abastecer. Estamos liberando, mas com muito cuidado. Então este terreno está resolvido. No instante que começarmos a trabalhar neste projeto, irá aparecer outros sem custo. Nosso projeto sempre está relacionado ao abastecimento de água. Nossa população cresce acima da taxa do IBGE e o Samae não acompanhou a produção de água tratada nessa demanda. Nossa situação é emergencial. Temos que produzir água. E uma das ações é que nós calculamos a demanda reprimida de madrugada, quando não há consumo e as bombas ficam paradas. Nós poderíamos produzir em torno de 3,8 milhões de litros de água. Vamos dar continuidade nessa produção na madrugada e vamos reservar para poder abastecer no dia seguinte. Pra isso já estamos em fase de licitação de um reservatório em torno de sete milhões de litros, o maior que vamos ter, no parquinho. Foi o melhor que achamos. De domínio público e podemos instalar imediatamente. Em fevereiro creio que já estaremos usando esse reservatório para reservar a água que produziremos de madrugada. É uma produção muito boa que nós vamos usar para amenizar a situação dos locais desabastecidos, principalmente no verão. Enquanto isso estamos trabalhando no projeto de uma nova ETA (Estação de Tratamento) que será instalada aqui no pátio, na área de estacionamento. Quando a ETA estiver pronta essa produção da ETA já pode ser reservada na folga do reservatório de sete milhões de litros. E também vamos fazer uma adutora nova. Como o espaço é reduzido, vamos retirar uma adutora antiga de 250 milímetros e vamos instalar uma nova de 400 milímetros do Guarani pra cá. E lá no Guarani, sempre na condição de ter um espaço já público, vamos fazer uma nova captação pra isolar essa captação que nós temos lá e deixar apenas como reserva. Gastamos uma fortuna com energia elétrica desnecessária, porque estamos captando água dos rios para os tanques através de bombas submersas, quando antes era por gravidade. Nós vamos voltar a fazer isso. Nos últimos anos gastamos quase R$ 1 milhão desnecessários em energia elétrica. Então vamos fazer uma captação por gravidade para dentro dos tanques e recalcar ela aqui pra cima no Samae. Esse é um projeto que já está sendo delineado. Já temos uma licitação tramitando para os técnicos trabalharem com o Samae na elaboração do projeto da nova ETA e captação. Estamos fazendo uma parceria com a Furb para trabalhar nestes projetos e, também, com profissionais da Universidade de São Carlos, em São Paulo. Já começamos a desenvolver algum projeto no sentido de preservar nossas áreas de mananciais em sistemas isolados. Nós aproveitamos as áreas de mananciais e abastecemos as áreas de entorno. Estes locais estão quase abandonados e nós então vamos preservar a matéria prima.

ODV: Em relação ao esgoto, sempre foi uma discussão. Até então acontece apenas o tratamento da água. Como está a este assunto aqui em Brusque?

Roberto Bolognini: A rigor o esgoto já deveria a muito tempo fazer parte do trabalho do Samae, já que ele é o Serviço Autônomo de Água e Esgoto. A Prefeitura tinha essa responsabilidade. Através de decreto levaram isso para a Prefeitura, na época da rede de manilha, quando implantaram aquela rede de manilha que não leva nada para lugar algum. Recentemente o Samae passou a ter essa responsabilidade do esgoto. E não podemos errar de novo. Já erramos várias vezes. O último projeto que mandaram a Brasília nem era de Brusque. Era de Jaraguá do Sul e foi a Brasília na tentativa de captar recursos. Quando eu cheguei no Samae, eu fiquei informado de que já existe um outro projeto, um outro contrato tramitando. Este não posso anular, tenho que respeitar. Este contrato é em torno de R$ 1,3 milhão. Já pagamos R$ 300 mil, mas ainda não está definido ainda que técnica vamos usar para tratar o esgoto. Temos algumas técnicas, mas temos que escolher aquela que atenda os preceitos da engenharia e que seja adequada para Brusque. Nós temos que escolher a melhor técnica. Não podemos errar de novo. O que estamos fazendo no momento é adaptando o contrato que temos e também vai ser utilizado o recurso ganho pelo ministro Kassab. Nós vamos utilizar para pagar esse contrato. Quando eu cheguei aqui já estava tramitando. Agora temos que redirecionar esse contrato para que esse técnico contemple a melhor técnica que seja adequada pra Brusque. Achamos uma forma estratégica, porque a questão da manilha está pendente em Brasília ainda. Estamos contornando essa área para aproveitar o contrato já existente, enquanto se resolve a questão da rede de manilha. Desse recurso que veio do Ministério das Cidades. Dessa forma conseguimos tirar do zero e começar a caminhar no rumo certo com um objetivo traçado, já que Brusque não tem coleta e tratamento de esgoto. É zero. Nós temos que passar vergonha quando vem um turista, ao dizer que o saneamento nós temos zero. Dessa forma vamos tratar o esgoto em Brusque.

ODV: Já existe empresa definida para esse trabalho?

Roberto Bolognini: Para o esgoto, não. Nós estamos dando prosseguimento nesse trabalho, para depois fazermos uma licitação para a empresa que vai participar. Isso com todo o cuidado. Nós temos que contemplar a melhor técnica e que seja adequada para Brusque.

ODV: Se fosse para colocar um prazo, quanto tempo vai levar para construir a licitação para concorrência das empresas?

Roberto Bolognini: Acredito que vai demorar ainda. Depois de ser  definida a técnica, nós temos que trabalhar num projeto básico para captação de recursos. Depois ainda nós temos que fazer um projeto executivo. Quando o tivermos é que vai ser lançada uma licitação para uma empresa implantar o projeto executivo. Isso demanda de dois a três anos, no mínimo. Mas é o tempo necessário.

ODV: E os resíduos sólidos?

Roberto Bolognini:  É mais uma responsabilidade para o Samae. Temos mais essa incumbência. Samae vai passar a gerenciar resíduos sólidos. O prefeito nos passou, verbalmente, essa incumbência.

ODV: Em relação a Beira-Rio, a gente percebe que há discussões em relação ao seu prolongamento. O que você como diretor do Samae tem achado desse assunto, até porque o o Samae depende do rio para tratar a água.

Roberto Bolognini:  Não é da área do Samae, mas como está ligado ao rio né? E em falar no rio, nas últimas entrevistas eu sempre falo o seguinte: nós temos que mudar o padrão de informações. As pessoas não bebem a água do Samae. Elas bebem água do rio. Por que eu quero fazer essa mudança de conceitos? Porque nós emporcalhamos o rio e bebemos a água do rio. Nós apenas limpamos a agua. Só pra falar do rio, né? A Beira Rio da forma como está ali, está errada. A Beira Rio foi um projeto encomendado da Universidade do Paraná e aquela cota da Beira Rio não foi chutada. Foi calculada com modelos de hidrologia e chegaram em uma cota 17, implantando a Beira Rio. Neste projeto foi içada a ponte Arthur Schlosser. Na enchente seguida depois da Beira Rio implantada, já se observou que a Beira Rio cumpriu sua função. A enchente não causou estragos. Porque a Beira Rio  tem duas funções: a primeira é escoar o tráfego da cidade, que hoje está caótico. A segunda é escoamento das águas quando a elevação atinge a cota 17, subindo na rua. Ela tem dupla função. Porém, está muito claro que não pode ter árvore nas margens. Porque ela causa atrito e retarda, prejudica o fluxo das águas. Quando tem o atrito, a água tende a subir. Hoje a Beira Rio está tomada por árvores. Inclusive plantaram árvores. Tem muita árvore, mamona, então aquelas árvores teriam que ser todas cortadas para as margens ficarem lisas. Me falaram que se eu cortar aquelas árvores vou preso. O projeto foi bem claro. Não pode ter árvore em nenhuma das margens do rio. A Beira Rio tem que exercer sua função. Nós temos que fazer as coisas certas agora. Todas aquelas árvores tem de ser removidas e as pessoas tem que ter consciência de não jogar água no rio, porque elas vão tomar aquela água.

Por Anderson Vieira

Publicado por Olhar do Vale

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