Quão longe pode estar um sonho? Para a Social Media Yara Teixeira, de 22 anos, e a analista de suporte e cantora Lais Tomio, de 28, estava a mais de 4,3 mil km de distância, na cidade de Manaus. Este ano é o primeiro Dia das Mães das moradoras de Guabiruba, que dividem a vida e o sonho de serem mães.
Foi através da adoção que elas o realizaram e agora vivem a rotina com Kalebe, o primogênito de três anos e Caio, de um ano, que chegou há menos de dois meses.
As duas estão casadas há quatro anos e meio e para Yara, o sonho da maternidade sempre esteve presente. Ao conhecer Lais elas ficaram determinadas a construir uma família.
O processo para habilitação da adoção durou aproximadamente um ano e seis meses. Após isso, o tempo para a chegada da criança foi rápido: pouco mais de um mês. Mas esse fator é exceção à regra, pois o perfil de adoção delas é diferente da maioria dos pretendentes: elas aceitavam crianças de zero a cinco anos e meio, podendo ter doenças e deficiências leves e moderadas, físicas e mentais, além de portadores do vírus HIV. Diferente do perfil dos outros 46 mil pretendentes habilitados no país, mais de nove vezes a quantidade de crianças disponíveis. Os perfis mais buscados pelos adotantes são crianças menores de três anos, sem irmãos e sem problemas de saúde. As crianças que se encaixam nesse perfil são minoria absoluta no sistema de adoção, de acordo com dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
“A gente tinha duas opções: ou a gente adotava ou a gente fazia fertilização in vitro, a gente até chegou a conversar com algumas clínicas de reprodução assistida, mas o valor era muito alto, isso em paralelo com a adoção. Assim que a gente se casou, em agosto de 2021, a gente já deu entrada em setembro na adoção, a gente já entregou a documentação. […] Na hora de preencher o perfil da criança pretendida o nosso perfil era inicialmente para até quatro crianças, podendo ser um grupo de irmãos ou quatro crianças que não fossem irmãos, até 5 anos e meio, sem preferência por cor, nem sexo, habilitamos para todas as doenças e deficiências leves, moderadas, físicas e mentais. Também aceitávamos HIV e tudo mais. Então, a partir do momento que entregamos os documentos, decidimos o perfil, nós esperamos alguns meses e fizemos o curso preparatório de forma online, que todos os pretendentes precisam fazer. Após alguns meses, a gente passou numa entrevista com a assistente social, que avaliou toda a nossa questão econômica, da família, moradia, transporte, financeiro, um tempo depois passamos com a psicóloga, que avaliou todas as questões emocionais e psicológicas. Após isso, dois meses depois, recebemos a habilitação. O juiz deferiu a nossa sentença de habilitação e foi quando a gente entrou na fila de adoção, oficialmente foi dia 15 de fevereiro de 2023 e dia 22 de março, o Kalebe apareceu na nossa vida,” afirma Yara.
A primeira adoção foi através do Busca Ativa, do Sistema Nacional de Adoção que divulga crianças que não tem pretendentes. Nestes casos a justiça tenta primeiro pretendentes no estado de origem, quando não há, a criança pode ser adotada em qualquer parte do país. Kalebe estava no abrigo desde que nasceu.
“São crianças que ninguém quer. Então, essas crianças, para terem mais chance de serem adotadas, são colocadas no próprio SNA, que é o Sistema Nacional de Adoção, para todas as pessoas habilitadas que possam ver e, se interessar, podem entrar em contato para adotar determinada criança ou grupo de irmãos ou adolescentes”, conta Yara.
Quando Kalebe apareceu, elas não pensaram duas vezes:
“Dia 22 de março a nossa cegonha [profissional que ajuda no processo de adoção] colocou que teria duas crianças lá em Manaus, um menino e uma menina, eles não eram irmãos mas estavam no mesmo abrigo, eles tinham 2 anos e os dois eram autistas e que não tinha pretendentes. Então na hora a gente pensou “tá no nosso perfil, a gente quer”. Demonstramos o interesse pra nossa cegonha e aí ela perguntou: “Que legal, vocês preferem o menino ou a menina? Aí a gente falou, “Qualquer um, pode ser a menina” E aí ela entendeu o menino e foi … foi o Kalebe, e era pra ser”.

Elas enviaram toda a papelada para a comarca de Manaus e o juiz aceitou a aproximação. Como a criança estava muito longe, nos primeiros dois meses o contato era feito por videochamada. Houve uma preparação para receber o novo integrante, além de enxoval as duas estudaram tudo o que podiam sobre o autismo.
Tudo pronto, as novas mamães seguiram para Manaus onde conheceram a criança no abrigo e tiveram autorização para passear com ele:
“A gente viu ele lá e a gente pensou que por conta do autismo ele não ia dar muita bola pra gente mas ele olhou, disfarçou e reconheceu. Aí ele falou “mama” então, ele veio no nosso colo, abraçou, beijou. Parecia que ele sabia tudo já, sabe? Parecia que ele sempre foi nosso, a gente só estava se encontrando. A gente estava separados e a gente se encontrou, mas que a gente sempre esteve junto, essa é a sensação. E o que a gente sentiu foi, é muito engraçado, porque realmente parece um parto mesmo, só não muda o corpo, mas muda todo o resto. Então, a gente sentiu lá o nosso filho nascendo e a gente nascendo como mães, foi muito mágico, indescritível”, afirma Yara sobre o sentimento do encontro.
Kalebe tem autismo de suporte nível III e atualmente a rotina da casa é pensada para que ele tenha a melhor vivência possível, além de terapias especificas. A mãe afirma que desde que o filho chegou já evoluiu muito e logo estará passando para o nível II.
O TEA, Transtorno de Espectro Autista, é baseado em três estágios básicos, que foram desenvolvidos por uma equipe de especialistas em saúde mental com base em anos de pesquisa e observação clínica de pessoas com autismo e publicados pela Associação Americana de Psiquiatria em 2013.
Esses níveis são determinados com base na intensidade dos sintomas e no impacto que têm na vida diária da pessoa.
Atualmente algumas pessoas ainda se baseiam nesses três estágios e outras já defendem que cada autista possui seu próprio nível que não deve ser comparado.
Os três níveis de autismo são:
1 – Leve – As pessoas com essa condição podem ter dificuldade em iniciar conversa, demonstrar interesse pelos outros e compreender expressões não verbais, como tom de voz. Além disso, comportamentos inflexíveis podem dificultar a realização de tarefas cotidianas, como seguir instruções ou alternar entre atividades.
2 – Moderado – As pessoas apresentam dificuldades significativas na comunicação, interação social, manter conversa, compreender sentimentos, entre outros. Além disso, podem apresentar comportamentos repetitivos e restritivos, que tendem a dificultar o aprendizado e a adaptação a mudanças. No critério diagnóstico, podem apresentar deficiência intelectual e linguagem funcional prejudicada.
3 – Grave ou severo – As pessoas apresentam dificuldades significativas na comunicação verbal e não verbal, que podem incluir atrasos no desenvolvimento da fala ou a ausência total da fala. Além disso, podem apresentar deficiência intelectual e ausência da linguagem funcional. Pessoas nesse estágio podem precisar de apoio substancial para lidar com as demandas da vida diária e podem ter dificuldade em viver de forma independente.

Novo integrante da família
Após receber a certidão de nascimento, elas começaram a compartilhar vídeos da rotina com o filho nas redes sociais e já somam mais de 6,6 mil seguidores em uma rede social. Elas dão dicas e falam sobre os conhecimentos adquiridos com a adoção e com o autismo.
Neste ano, logo após a certidão de nascimento de Kalebe ser emitida, elas voltaram para a fila de adoção e mais uma vez, 25 dias depois o telefone tocou com boas notícias: Um menino que tinha acabado de fazer um aninho e vivia no abrigo desde o nascimento se encaixava no perfil delas.
Elas não pensaram duas vezes e foram buscar o novo filho, que desta vez estava mais perto, aqui em Santa Catarina, em uma viagem de 40 minutos de carro.
Caio, nome escolhido por elas, tem atraso no desenvolvimento motor (ainda não anda) e por isso não teve perfil compatível com nenhum dos 2,5 mil pretendentes à adoção que estavam na frente das duas, apesar de não ter nenhum laudo que atestasse tal condição.

“Por conta desse histórico nenhum dos 2.500 pretendentes que estavam na nossa frente no estado de Santa Catarina aceitava atrasos e a gente aceitava. Então nós fomos chamadas rapidamente e nós aceitamos, era uma criança que também estava no nosso perfil e a gente aceitou e duas semanas depois a gente foi conhecer ele e já trouxemos para casa no mesmo dia, diferente do Kalebe, não teve uma aproximação porque o Caio é muito pequenininho, então a gente tá vivendo uma aproximação agora nestes dias, toda essa mudança, tanto pra ele quanto pro Kalebe, pros dois”.
As duas contam com uma rede de apoio grande para dar conta da nova rotina, a família sempre está a disposição. Mas, no dia a dia as duas que cuidam das crianças. Yara afirma que a maternidade foi a sensação mais transformadora que já viveram e os momentos mais significativos são vívidos dia após dia.
“Essa foi a coisa mais transformadora que a gente tá vivendo, são objetivos completamente diferentes. Tudo é para eles, então tem toda essa mudança. A gente vê a evolução do Kalebe em alguma coisa ou quando a gente vê que ele está ali interagindo com o Caio ou até mesmo quando eles sorriem pra gente, ou dão um abraço, qualquer coisa assim já é um momento significativo para nós. Porque a gente sabe que nenhuma criança em acolhimento tem uma história bonita. Então, a gente sabe que são crianças que já têm traumas, já está enraizado o trauma neles, e a gente vê eles felizes e interagindo, evoluindo. Acho que são momentos bem significativos pra gente”.
Dados da da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-BR), mostram que 50.838 crianças foram registradas por casais homoafetivos no Brasil entre 2021 e 2023. Isso ajudou a dobrar o número de adoções no país. O número reflete o reconhecimento das famílias homoafetivas, mas também marca um avanço significativo nas políticas de adoção e direitos no país. A conquista é recente, após a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ em 2013 , seguido pela decisão do Supremo Tribunal Federal – STF em 2015, que autorizou a adoção.

Yara afirma que durante a jornada de adoção e no dia a dia não sofreram preconceito, mas perceberam olhares e situações de despreparo das pessoas:
“Não [preconceito] diretamente, mas com olhares, com fichas para preencher com mãe e pai, com a falta de sabedoria e conhecimento dos locais em fazer algum registro com duas mães. Diria que são mais situações de constrangimento de despreparo do que preconceito direto. Mas sim, sempre tem olhares e cochichos quando estamos em algum lugar”, afirma.
Rotina compartilhada
Nas redes sociais, as mães compartilham sua rotina com o objetivo de divulgar a adoção para que as pessoas possam acompanhá-las e se inspirarem.
“Quando iniciamos o processo de adoção, nos deparamos com um mundo extremamente solitário. Não tem ninguém falando de adoção, (poucas pessoas) e muito menos adoção atípica, como o nosso caso. Então a gente sentiu muita falta mesmo de ter quem acompanhar e entender melhor a realidade da adoção. Por isso, criamos um perfil no Instagram para partilhar o que a gente queria ter sabido quando nós iniciamos o processo. Mesmo com 500 seguidores [hoje o perfil conta com mais de 6 mil pessoas], o perfil é extremamente engajado, 90% das pessoas interagem, perguntam, mandam direct, porque realmente, são poucas pessoas falando sobre isso. E se a gente puder ajudar pelo menos uma família com esse perfil, já estamos felizes”, conta.
Yara diz que outro ponto importante na adoção é o que ela chama de puerpério adotivo.
“Sim, existe puerpério na adoção e quem está de fora acha que não! Tudo muda, tudo mesmo, só não o corpo, como numa gestação. Mas o cansaço é o mesmo, tudo é igual e foi muito difícil não recebermos alguém que nos ajudasse nos primeiros dias em casa, talvez por pensarem: “Elas que escolheram isso, então que aguentem.” ou “Ele já é maiorzinho” (Essa foi uma das partes mais difíceis, a gente não queria reclamar nada sobre o que estávamos vivendo para não dar brecha ao preconceito.)” comenta.
Este é o primeiro dia das mães das duas. Segundo Yara, é melhor coisa que aconteceu na vida do casal:
“O sentimento de ser mãe é algo inexplicável, é uma doação integral de corpo e alma, chegando até ser meio sobrenatural. Ao mesmo tempo que você fica exausta todos os dias, um sorriso deles ou uma evolução por menos que seja, já transforma nosso dia. Ser mãe é uma coisa muito louca e maravilhosa. Não trocaria meus filhos e minha família por nada neste mundo, foram as melhores coisas que aconteceram em nossas vidas”.
Para quem está passando pelo processo de espera na adoção, a social media deixa dicas:
“Estudem, estudem muito sobre o processo de adoção, sobre prazos, sobre o pós adoção e principalmente participem de grupos de apoio à adoção. Fale com famílias que já adotaram. A espera é parte mais angustiante, você fica nervosa, com a cabeça a mil todos os dias, mas quando a gente usa esse tempo para estudar e entender sobre adoção como ela realmente é (sem fantasias e romantização), quando os filhos chegam estamos muito mais preparadas. Adoção não é um conto de fadas, eu orientaria a olhar para a adoção como realmente ela é: As crianças que são adotadas não tem um passado bonito, todas elas, de alguma forma, sofreram e enraizaram traumas, o que reflete muito nas atitudes do dia a dia, então acredito que ter isso em mente ajuda muito para não chegar na hora e não ser o que você imaginava”, finaliza.
Para acompanhar mais sobre a jornada de adoção das duas acompanhe o perfil no link: Yara e Lais | Mães por Adoção (@maes_poradocao) • Fotos e vídeos do Instagram
Colaboraram Leticia Refundini e Mariana Beuting





