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Exclusivo: Documentos oficiais reforçam indício de que R$ 22,7 milhões extras ajudaram a cobrir rombo na Saúde de Brusque

Documentos apontam aumento de gastos, filas altas e pressão financeira na Saúde de Brusque.

policlinica brusque
Foto: Divulgação PMB

Os documentos oficiais encaminhados pela Prefeitura de Brusque ao Conselho Municipal de Saúde(Comusa) e analisados pela reportagem do Olhar do Vale mostram que a Secretaria de Saúde recebeu um incremento de R$ 22.752.616,35 em recursos próprios, ou seja, dinheiro extra aplicado além do que estava inicialmente previsto pela própria administração. O valor aparece em meio a um cenário de filas represadas, contratos sob pressão, procedimentos zerados em relatórios oficiais e cobrança formal de explicações por parte do Conselho Municipal de Saúde.

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Parecer – comissão de monitoramento e avaliação do Comusa.

No parecer da Comissão de Monitoramento e Avaliação do Comusa, o conselho compara o PAS 2025, que é a Programação Anual de Saúde e funciona como o planejamento do que a secretaria previa gastar e executar no ano, com o 3º RDQA, que é o Relatório Detalhado do Quadrimestre Anterior, a prestação de contas oficial da pasta. No papel, a saúde tinha previsão de R$ 137.483.972,35 em despesas com recursos próprios. Na execução apresentada no relatório quadrimestral, o valor pago saltou para R$ 160.236.589,00. A diferença é justamente o incremento de R$ 22,75 milhões que agora está sob questionamento.

O problema é que esse reforço não aparece cercado de transparência proporcional ao tamanho da cifra. Ao contrário. O próprio Comusa cobra justificativas formais para o aumento de recursos e também para a produção zerada de endoscopias, consultas em angiologia e colonoscopias no 2º e no 3º quadrimestres, mesmo com demanda reprimida, expressão usada para definir a fila acumulada de pacientes à espera de exame, consulta ou procedimento. O parecer cita 653 pessoas aguardando endoscopia desde agosto de 2025, 2.389 esperando retorno em angiologia desde agosto de 2021 e ainda fila em colonoscopia, o que evidencia que a rede não estava funcionando em cenário de normalidade.

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Ranking das filas reprimidas. Arte: Olhar do Vale

A situação fica ainda mais grave quando se olha o relatório de demanda represada de fevereiro de 2026. O documento aponta 47.986 procedimentos acumulados na fila. Entre os principais gargalos aparecem 10.122 exames laboratoriais, 4.023 atendimentos de fisioterapia, 2.897 retornos em ortopedia, 2.389 retornos em vascular, 2.019 atendimentos de fonoaudiologia e 1.938 ressonâncias magnéticas. Em outras palavras, enquanto a prefeitura injeta mais dinheiro na saúde, o passivo de pacientes segue alto em áreas básicas e especializadas.

Esse novo quadro traz à tona uma polêmica antiga. No ano passado, o Olhar do Vale revelou a existência de um déficit de cerca de R$ 20 milhões na saúde de Brusque, com base em entrevista concedida pelo então secretário da pasta, Ricardo Freitas. A informação foi negada publicamente pelo prefeito André Vechi (PL) que excedeu os limites da liberdade de expressão e tentou descredibilizar o Olhar do Vale. O episódio acabou judicializado pelo portal e a justiça deu ganho de causa ao Olhar do Vale na primeira instância, reforçando o profissionalismo com que a reportagem foi construída. Agora, meses depois, os próprios documentos oficiais da saúde mostram um reforço milionário no orçamento em meio a filas, pressão financeira e cobrança de explicações pelo conselho.

O relatório financeiro e de contratos da Secretaria de Saúde reforça esse ambiente de aperto. O documento aponta 41 contratos ativos, com valor atualizado de R$ 173.967.153,88. Desse total, R$ 40.231.246,99 já haviam sido utilizados entre 2025 e março de 2026. O mesmo painel mostra 12 contratos com alertas ativos, três com saldo negativo e um em situação crítica. Não se trata, portanto, de uma estrutura administrativa folgada. Os números mostram uma rede financeiramente tensionada.

Um dos exemplos é o contrato de um laboratório de análises clínicas. Segundo o relatório, o contrato 006/2026 passou de R$ 420 mil para R$ 1,15 milhão após um aditivo, que é a alteração formal do contrato para ampliar prazo, valor ou quantidade. O documento chama a medida de reequilíbrio econômico, termo técnico usado para justificar uma revisão financeira da contratação, e diz que isso ocorreu por causa do expressivo aumento da demanda por exames laboratoriais. Na prática, foram R$ 730 mil a mais, em um salto de 174%. O dado comprova aumento de gasto. O que ele não comprova é que esse dinheiro tenha sido suficiente para resolver a fila.

A pressão da saúde também está fortemente concentrada nos hospitais. O relatório aponta que o Hospital Arquidiocesano Cônsul Carlos Renaux e o Hospital Dom Joaquim receberam juntos R$ 179.814.861,77 no período analisado, valor equivalente a 56,3% de toda a execução financeira da Secretaria Municipal de Saúde em 2025. Sozinho, o Azambuja respondeu por 48,4% da execução anual da pasta, enquanto o Dom Joaquim ficou com 7,9%. Isso significa que mais da metade de tudo o que a saúde municipal executa acaba concentrada nas duas unidades hospitalares.

Os gastos gerais da pasta também dispararam. O relatório mostra que a execução total da saúde saiu de R$ 219.296.427,46 em 2024 para R$ 267.923.483,42 em 2025, alta de 22,2% em apenas um ano. A secretaria interpreta esse avanço como expansão real da oferta de serviços. Mas os demais documentos não permitem uma leitura tão confortável. Se houve mais dinheiro, mais contratos e mais execução, por que o conselho segue cobrando explicações para aumento de recursos e para procedimentos zerados em áreas que mantêm fila acumulada?

É justamente nesse cruzamento de dados que surge o ponto mais delicado. Os documentos não afirmam, de forma literal, que os R$ 22,75 milhões extras foram usados para cobrir o déficit revelado anteriormente. Mas o conjunto forma um desenho muito claro: houve aumento expressivo de recursos próprios, manutenção de filas elevadas, procedimentos zerados em relatórios oficiais, contratos sob pressão e necessidade de reforço financeiro em áreas sensíveis. Diante disso, há fortes indícios de que esse incremento tenha servido, ao menos em parte, para tapar o buraco financeiro da saúde que a gestão preferiu negar quando o tema veio a público.

A pergunta que fica para a prefeitura é objetiva. Se o reforço milionário não teve relação com a insuficiência financeira da pasta, qual foi a razão concreta para a saúde precisar de mais R$ 22,7 milhões de recursos próprios em tão pouco tempo? E se esse dinheiro foi usado para ampliar a oferta de serviços, por que os próprios documentos oficiais mostram filas ainda tão pesadas e procedimentos zerados em setores sensíveis? Até agora, o que os papéis revelam não é uma saúde reorganizada, mas uma estrutura mais cara, pressionada e ainda sem explicação pública convincente para o tamanho do rombo que precisou ser coberto.

O presidente do Comusa e médico Sebastião Alexandre Isfer de Lima, o Dr. Lima, foi procurado para comentar o pedido de esclarecimento do conselho à prefeitura, mas ele prefere se manifestar após a reunião do próximo mês onde, teoricamente, a prefeitura deve explicar a justificativa do “incremento”. A reportagem também procurou o Secretário de Saúde de Brusque, Ricardo Freitas, que não retornou nosso contato até o fechamento desta matéria.

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