A audiência pública promovida pela Comissão Especial da Saúde da Câmara de Brusque trouxe dois lados: usuários que convivem com espera por consultas, exames, especialistas e dificuldades no atendimento e do outro, servidores que relatam sobrecarga, falta de estrutura e adoecimento diante da pressão diária nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Realizado na quinta-feira (20), o encontro reuniu moradores, trabalhadores da rede, representantes do Conselho Municipal de Saúde (Comusa), integrantes da gestão e vereadores. A comissão já percorreu as 27 UBSs e outros equipamentos da Saúde antes de realizar a audiência.
Os profissionais da Saúde aproveitaram a audiência para mostrar o que acontece do outro lado do atendimento. Cláudia Carraro, enfermeira da UBS Ponta Russa, afirmou que a dinâmica das unidades básicas mudou especialmente depois da pandemia de Covid-19. “As UBSs se tornaram mini UPAs. E não é o nosso objetivo”, declarou.
Segundo ela, a Estratégia Saúde da Família deveria priorizar prevenção e acompanhamento contínuo dos pacientes, permitindo que a mesma equipe acompanhe gestantes, crianças, diabéticos, hipertensos e outros moradores ao longo do tempo. Cláudia também disse sentir falta da estrutura multiprofissional que anteriormente existia por meio do NASF, com profissionais como psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas apoiando diretamente as equipes das UBSs.
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“Nós estamos adoecendo”
A enfermeira também fez um relato sobre o desgaste emocional de quem trabalha na ponta do SUS. “Nós estamos adoecendo porque estamos sendo também assediados”, afirmou. Cláudia contou ter enfrentado uma situação de conflito com um usuário no próprio dia da audiência e disse que agressões verbais e acusações também atingem os profissionais. Na avaliação dela, a população tem direito de reclamar quando existe um problema, mas os servidores também precisam ser protegidos quando acusações não correspondem ao que ocorreu. Ela pediu maior valorização dos profissionais e apoio da gestão, da Ouvidoria e das demais instâncias municipais.
Faltas de pacientes também afetam as filas
Cláudia apresentou ainda um dado para mostrar que o comportamento dos próprios usuários pode interferir no acesso ao serviço. Segundo ela, somente na UBS Ponta Russa foram registradas 165 faltas a consultas médicas entre janeiro e junho. A enfermeira afirmou que pacientes marcam atendimento e, quando não podem comparecer, muitas vezes não avisam com antecedência. Com isso, um horário que poderia ser disponibilizado para outra pessoa acaba perdido.
Profissional diz que estrutura não acompanhou aumento das equipes
A enfermeira Daiana Paixão reconheceu que Brusque ampliou o número de médicos, enfermeiros e técnicos ao longo dos anos, mas afirmou que o crescimento das equipes não foi acompanhado pelo restante da estrutura. Segundo ela, não houve aumento proporcional de funcionários administrativos, oferta de exames e espaço físico.
Daiana também criticou cobranças baseadas exclusivamente em produtividade numérica. Para a servidora, existem atendimentos que exigem tempo maior de escuta e avaliação, especialmente diante de situações complexas de saúde física ou mental.
Um dos exemplos apresentados foi o de um paciente que procurou a UBS inicialmente para um curativo. Durante o atendimento, a equipe percebeu sinais de um problema mais grave, que resultou em encaminhamento para a UTI. Para Daiana, é justamente esse olhar sobre o paciente como um todo que não pode ser perdido na atenção básica.
“Nós não estamos sendo ouvidos”
A enfermeira também fez uma cobrança direta sobre a participação dos profissionais no planejamento da Saúde municipal. “Não há planejamento sem ouvir os profissionais que estão na ponta, e nós não estamos sendo ouvidos. Os planejamentos não estão ocorrendo com a nossa participação”, afirmou.
Ela argumentou que cada bairro possui características diferentes e que as políticas não podem ser simplesmente padronizadas sem considerar a realidade encontrada por quem trabalha diariamente naquele território. A manifestação ocorreu após a Secretaria apresentar a previsão de implantação de cinco equipes eMulti até 2029. Daiana questionou o prazo, afirmando que, até lá, a população atendida por sua equipe poderá crescer significativamente.
“Com certeza, em 2029 esse planejamento já furou, ele não vai dar conta”, disse.
Agente comunitária diz que usuários e servidores estão descontentes
A agente comunitária de saúde Cátia Regina dos Santos Elias, servidora há 20 anos, resumiu parte do ambiente encontrado na rede ao questionar a própria Comissão Especial. “De todas as visitas que vocês fizeram, o que vocês acham que pesa mais? O descontentamento da população ou o descontentamento do servidor? Porque estão os dois lados descontentes”, afirmou.
Cátia também avaliou que as UBSs perderam parte da capacidade de resolver os problemas dentro da própria atenção básica. Segundo ela, situações que antes podiam ser acompanhadas com apoio de equipes multiprofissionais hoje acabam encaminhadas para especialidades. “A gente perdeu a essência da Unidade Básica de Saúde”, disse.
Na avaliação da agente, esse processo pressiona ainda mais as filas. “A ponta, a base, não tem mais o poder de fazer nada. A gente precisa só encaminhar”, afirmou.
Comissão diz que servidores tiveram receio de falar
A pergunta de Cátia provocou uma resposta importante do presidente da Comissão Especial da Saúde, Joubert Lungen. Segundo ele, durante as visitas realizadas pela comissão, foram ouvidas mais reclamações dos usuários. Entretanto, o vereador disse ter percebido que parte dos profissionais não se sentia à vontade para apresentar seus problemas.
“A minha opinião é que muitos servidores, na hora que a gente estava lá, ficaram receosos de fazer o seu relato. Isso eu pude comprovar”, afirmou. Joubert disse que a comissão pretende retornar às UBSs e ampliar a escuta dos trabalhadores antes da conclusão do relatório.
Gestão reconhece filas e falta de espaço
Durante a audiência, Inajá fez contrapontos às críticas e afirmou que a atual gestão mantém canais abertos com os trabalhadores. Segundo ela, o secretário Ricardo Freitas, diretores e outros integrantes da equipe percorrem os serviços e recebem demandas dos profissionais, inclusive fora do horário normal de expediente. A representante da Secretaria, porém, reconheceu alguns dos problemas mencionados durante a noite. Ao falar sobre a espera por atendimento especializado, declarou: “É fato. Nós temos fila.”
Ela também admitiu que algumas UBSs não possuem espaço suficiente para comportar simultaneamente todos os profissionais das equipes. Na unidade do Rio Branco, por exemplo, afirmou que três médicos e três enfermeiros não conseguem trabalhar todos no mesmo horário devido à limitação física do prédio, o que exige ajustes na escala de atendimento.



