A base de sustentação do prefeito André Vechi começa a demonstrar publicamente que a união pode durar somente enquanto for conveniente.
Durante pronunciamento na Câmara de Brusque, o vereador Antônio Roberto, do PRD, afirmou que vem recebendo recados para não visitar determinadas ruas e bairros porque as regiões supostamente “pertenceriam” a outros vereadores.
Eleito para representar toda a cidade, Antônio precisou usar a tribuna para avisar aos próprios colegas que Brusque não foi dividida em capitanias hereditárias.
O vereador não revelou quem teria enviado os recados nem identificou os parlamentares que estariam reivindicando a propriedade política dos bairros. Também não apresentou, naquele momento, os áudios e imagens que disse possuir. Mesmo assim, a declaração expôs uma disputa interna por território, atendimento de demandas e, principalmente, pelo crédito das obras executadas pela Prefeitura.
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Antônio Roberto é oficialmente vereador pelo PRD e exerce seu primeiro mandato.
O “Muro de Berlim” da política brusquense
Antônio Roberto afirmou que vereadores devem fiscalizar todos os 32 bairros de Brusque, independentemente de onde receberam votos.
“Não existe na cidade de Brusque, para nós contextualizarmos, o Muro de Berlim”, declarou.
Segundo ele, após visitar determinadas localidades para fiscalizar problemas e cobrar providências da Prefeitura, moradores ou intermediários teriam enviado mensagens dizendo que ele não deveria atuar no local porque já existia um vereador responsável pela região.
“Nós temos ido em algumas localidades e algumas pessoas vêm nos procurar ou nos mandam áudio depois, dizendo que a gente não pode estar indo no bairro tal, na rua tal, porque existe já um vereador ali”, afirmou.
O recado sugere uma espécie de loteamento informal da cidade. Um vereador ficaria com o Limoeiro, outro com a Limeira, outro com a Nova Brasília e quem ousasse atravessar a fronteira correria o risco de ser acusado de invadir o curral eleitoral alheio.
Brusque, nesse modelo, deixaria de ter 15 representantes municipais e passaria a ter pequenos prefeitos de bairro, cada um tentando controlar pedidos, vídeos, reuniões e anúncios de melhorias.
“Vou entrar em todos os bairros”
Antônio afirmou que, até então, vinha respeitando esses supostos limites. A partir de agora, porém, prometeu ignorar os recados.
“De agora em diante, eu estava até respeitando, mas vou entrar em todos os bairros, em todas as ruas que tiver na cidade. Vou gravar vídeo, sim, e vou cobrar, sim, porque esse é o meu papel”, disse.
A frase mais reveladora talvez não seja a promessa de circular livremente pela cidade, algo que deveria ser absolutamente normal para qualquer vereador.
O surpreende é a admissão de que ele estaria sendo “impedido”, havia mais de um ano, de atuar em algumas ruas porque outro parlamentar já teria tomado posse política da área.
“Nós somos impedidos muitas vezes, em mais de um ano e sete meses, de estarmos indo a algumas ruas. ‘Não pode fazer aqui porque aqui já tem um vereador’. Para mim, pouco importa”, declarou.
Não se sabe quem estabeleceu essas fronteiras invisíveis. Mas, pela fala do próprio vereador, elas existiam, eram respeitadas e agora começaram a ser rompidas.
Base unida , cada um no seu bairro
Antônio Roberto fez questão de reafirmar que integra e confia no governo André Vechi e no vice-prefeito Deco Batisti. Vechi ocupa atualmente o cargo de prefeito de Brusque e está em seu segundo mandato.
Ao mesmo tempo, deixou claro que não aceitará ser tratado como alguém que precisa pedir autorização para cobrar serviços municipais.
“Eu não sou o neném do governo André Vechi, nem do Deco Batisti, nem o neném do secretário Ivan Bruns”, disparou.
Logo depois, declarou que continua confiando na administração.
“Estou no governo André Vechi e Deco Batisti. Confio e acredito, como nos demais secretários que estão aí para trabalhar”, disse.
A tentativa de conciliar fidelidade e rebelião resume o momento político: Antônio continua na base, mas já avisa que não aceitará ordens, cercas ou intermediários.
É a base unida, desde que cada vereador permaneça dentro do bairro que alguém decidiu lhe entregar.
Guerra pelo crédito das obras
O pronunciamento também revelou uma disputa pelo protagonismo das melhorias realizadas pela Prefeitura.
Antônio reclamou que, após cobrar uma obra ou serviço, surgem pessoas tentando diminuir sua participação ou dividir o mérito com outro vereador.
“A gente corre atrás de algumas coisas, e aí chega alguém e já especifica: ‘O fulano sozinho não está conseguindo nada, tem outro ali que está ajudando também’”, afirmou.
O episódio mostra que a briga não parece ser apenas pelo atendimento da população. Também envolve quem aparecerá no vídeo, quem anunciará a obra, quem agradecerá ao prefeito e quem poderá apresentar o resultado como conquista própria na próxima eleição.
Na política de bairro, o buraco tapado pode valer menos pela melhoria no trânsito e mais pela legenda colocada na publicação.
Antônio afirmou que não teria problema em dividir o espaço com os demais parlamentares.
“Se quiserem todos os outros 14 vereadores estar juntos, vamos juntos. Grava um vídeo junto, sem problema nenhum”, declarou.
O convite à união, porém, veio acompanhado de um aviso: ele não aceitará novos recados dizendo que não pode atuar sozinho em determinada região.
Vereador promete apresentar provas
Antônio disse possuir áudios, fotografias e vídeos relacionados às situações relatadas e prometeu apresentar parte do material em outra sessão.
Entre os casos citados está a retirada de uma placa que proibia estacionamento. Segundo ele, o equipamento teria sido instalado pela Prefeitura e arrancado por moradores que alegaram contar com a proteção de outro vereador.
Antônio não revelou o endereço, os envolvidos ou o nome do parlamentar mencionado. Portanto, até que as provas sejam apresentadas, trata-se de uma acusação feita na tribuna, ainda sem elementos públicos suficientes para identificar ou responsabilizar alguém.
“Um manda colocar, outro manda tirar. Não é assim que funciona”, criticou.
O vereador afirmou que a legislação deve valer igualmente para todos e que ninguém pode utilizar a proximidade com agentes políticos como salvo-conduto para retirar sinalização pública.
Caso apresente as imagens e identifique os envolvidos, o episódio poderá deixar de ser apenas uma briga por território eleitoral e passar a exigir explicações formais.
O racha já ensaia sua estreia
O pronunciamento não permite afirmar que a base governista esteja oficialmente rompida. Antônio reafirmou apoio e confiança na gestão. Mas também seria ingenuidade tratar a fala como um simples desabafo isolado.
Um vereador governista disse publicamente que recebeu mensagens para não entrar em bairros supostamente vinculados a outros parlamentares, relatou interferências no atendimento de demandas, reclamou da disputa por méritos e avisou que não obedecerá mais às fronteiras internas.
Isso não é exatamente uma demonstração de harmonia.
Por enquanto, Antônio Roberto ainda está no governo. Mas avisou aos aliados que não pedirá passaporte para atravessar os bairros de Brusque.




