A festa ainda nem começou, mas a calculadora já entrou em cena. E o número impressiona: cada minuto do show de Michel Teló no aniversário de Brusque vai custar quase R$ 4,5 mil aos cofres públicos.
O valor aparece quando se divide o contrato de R$ 400 mil pela duração prevista da apresentação: 90 minutos. O documento, localizado pelo Olhar do Vale no Portal Nacional de Contratações Públicas, o PNCP, prevê show nacional no dia 3 de agosto de 2026, com início às 23h30, na virada para o aniversário de 166 anos de Brusque.
São R$ 4.444,44 a cada minuto. Em uma hora, a conta proporcional passa de R$ 266 mil. Não é ingresso. Não é patrocínio privado. Não é vaquinha de fã-clube. É dinheiro público.
O detalhe mais importante é que esses R$ 400 mil se referem à contratação artística. O próprio contrato mostra que a Prefeitura ainda assume obrigações para viabilizar o evento, como estrutura de som, iluminação, gerador, segurança profissional, carregadores e pagamento de obrigações ligadas ao ECAD, responsável pela arrecadação de direitos autorais pela execução pública de músicas. Com esses gastos, o show pode chegar a quase R$ 1 milhão de acordo com valores de mercado.
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Ou seja: a apresentação de 90 minutos começa em R$ 400 mil. O custo final da festa pode ser maior. A Prefeitura pode até vender o evento como “gratuito”. Mas gratuito, nesse caso, é só para quem passa pela entrada sem comprar ingresso. A fatura existe, tem CNPJ, contrato, valor global e obrigações públicas. Quem paga é o contribuinte.
Em uma cidade com fila na saúde, bairros cobrando manutenção, escolas precisando de estrutura, espaços esportivos pedindo melhorias e artistas locais disputando migalhas para conseguir se apresentar, R$ 400 mil em 90 minutos de show é uma escolha política.
Com esse dinheiro, Brusque poderia bancar mutirões de exames, reforçar a compra de medicamentos, ampliar atendimentos, melhorar estruturas de creches e escolas, recuperar espaços públicos, investir em esporte nos bairros ou criar um edital cultural capaz de contemplar dezenas de artistas da própria cidade.
Não resolveria todos os problemas de Brusque. Mas também não sumiria em uma hora e meia de palco.
Por que a gestão municipal decidiu colocar R$ 400 mil de dinheiro público em uma apresentação de 90 minutos?Quando o show acabar, a música para. A conta fica.
E ela não é pequena. Cada 60 segundos custam quase R$ 4,5 mil. Cada dez minutos passam de R$ 44 mil. Meia hora de apresentação equivale a mais de R$ 133 mil. Em 90 minutos, Brusque chega aos R$ 400 mil apenas na contratação artística. A cidade vai cantar. Mas quem desafina é o orçamento público.
A contratação foi feita por inexigibilidade de licitação, modalidade prevista em lei para artistas consagrados. Isso não significa, por si só, ilegalidade. Mas legalidade não é cheque em branco para falta de debate sobre prioridade.
O aniversário de Brusque poderia ser comemorado de muitas formas. A Prefeitura escolheu uma das mais caras: contratar uma atração nacional com dinheiro público e ainda assumir custos de estrutura.



