Não existe transparência pela metade. Ou o poder público presta contas à sociedade, de forma ampla, democrática e republicana, ou transforma a comunicação oficial em ferramenta de conveniência política. Em Brusque, a relação do prefeito André Vechi com a imprensa crítica precisa ser discutida com seriedade, porque o problema não está em conceder entrevistas a este ou aquele veículo. O problema começa quando o agente público parece escolher quem merece resposta com base no grau de simpatia que recebe.
Prefeito não é dono da informação pública. Prefeitura não é extensão de grupo político. Comunicação institucional não pode funcionar como sala VIP para veículos alinhados, enquanto perguntas incômodas são tratadas como provocação, perseguição ou “tendenciosidade”. Quando uma administração só se sente confortável diante de perguntas fáceis, aplausos previsíveis e entrevistas sem contraditório, quem perde não é apenas a imprensa independente. Quem perde é o cidadão.
O Olhar do Vale não reivindica privilégio. Reivindica respeito ao papel da imprensa. Perguntar, fiscalizar, insistir e cobrar explicações não é ataque pessoal. É jornalismo. E jornalismo não existe para massagear ego de autoridade, muito menos para servir de assessoria informal de governo. Se a pergunta é dura, que venha a resposta. Se a reportagem incomoda, que se apresente a versão oficial. Se há erro, que se aponte o erro com dados, documentos e argumentos. O que não cabe em uma democracia é o silêncio seletivo como método de gestão.
Chamar de “tendencioso” todo veículo que questiona o poder é uma velha estratégia para fugir do debate. É mais fácil desqualificar o mensageiro do que responder à mensagem. É mais confortável escolher a imprensa amiga do que encarar a imprensa que pergunta sobre gastos públicos, obras paradas, saúde, contratos, cargos, viagens, publicidade oficial e decisões administrativas. Mas o cargo de prefeito exige mais do que conforto político. Exige prestação de contas.
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A crítica faz parte da vida pública. Quem ocupa cargo público precisa entender que está sujeito ao escrutínio permanente. Isso não é perseguição. É consequência natural de administrar dinheiro público, tomar decisões públicas e interferir diretamente na vida da população. O prefeito pode discordar de uma linha editorial, pode rebater reportagens, pode apresentar dados, pode contestar interpretações. O que não deveria fazer é selecionar, na prática, quais perguntas merecem resposta e quais veículos devem ser ignorados.
A imprensa simpática ao governo tem o direito de existir. Entrevistas amistosas também fazem parte do ambiente público. O problema está no desequilíbrio. Quando o poder fala apenas com quem o trata com suavidade e evita quem cobra com firmeza, o discurso de diálogo perde força. Diálogo de verdade não é conversa entre aliados. Diálogo de verdade inclui contraditório, incômodo, divergência e cobrança.
A charge publicada pelo Olhar do Vale usa humor para tratar de um problema sério: a transparência seletiva. É uma sátira, mas nasce de uma preocupação real. Quando perguntas difíceis são empurradas para depois, quando veículos independentes são ignorados e quando a comunicação oficial parece operar com critérios políticos, a sociedade precisa acender o alerta. Porque hoje o silêncio pode atingir um jornal. Amanhã, pode atingir qualquer cidadão que ouse questionar.
Brusque não precisa de uma imprensa domesticada. Precisa de uma imprensa livre. E uma imprensa livre não é aquela que só publica elogios, releases ou discursos prontos. É aquela que incomoda quando precisa incomodar, que pergunta quando há dúvida, que cobra quando há contradição e que não pede licença ao poder para cumprir sua função.
O prefeito André Vechi não precisa gostar do Olhar do Vale. Nenhuma autoridade é obrigada a gostar de jornalista, de reportagem ou de crítica. Mas autoridade pública tem o dever de respeitar a imprensa e, acima de tudo, o direito da população à informação. Responder perguntas não é favor. É obrigação institucional.
Quando o poder escolhe apenas quem pode perguntar, a transparência deixa de ser princípio e vira encenação. E Brusque merece mais do que encenação. Merece respostas.







