Uma rotina que mudou de um dia para o outro. Foi assim que a família de Camille Vitória, hoje com 19 anos, recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1. Segundo a mãe, Meriele Schmitz, a jovem dormiu bem e acordou com a doença já alterando completamente a dinâmica da casa, os cuidados diários e o orçamento da família.
Agora, essa experiência pessoal virou também uma mobilização coletiva em Brusque. Os vereadores Joubert Lungen (Podemos), Antonio Roberto (PRD) e Jean Pirola (PP) articulam uma audiência pública junto da Rede Dedicar, que é um Grupo de Apoio a Crianças e Adolescentes com Diabetes Tipo 1, formada por endocrinologista pediátrica, nutricionista, psicóloga e farmacêutico. O encontro terá como tema a importância dos sensores de glicose para pessoas com diabetes tipo 1.
A audiência pública será realizada no dia 19 de março, às 19h, na Câmara de Vereadores de Brusque. A convocação é para que famílias, amigos e apoiadores participem do debate e reforcem a reivindicação por acesso aos sensores de glicose, apontados como fundamentais para controle da doença, prevenção de crises e mais qualidade de vida.
Meriele falou com emoção sobre a realidade vivida pela filha. Segundo ela, Camila tem episódios de hipoglicemia assintomática, ou seja, pode ter uma queda importante de glicose sem perceber os sinais no próprio corpo. É justamente nesse ponto que entra o sensor conhecido popularmente como “Libre”, capaz de monitorar a glicose continuamente e emitir alertas em tempo real.
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“Esse aparelho salva vidas”, resumiu a mãe, ao explicar que o sensor permite acompanhar à distância as oscilações da glicemia pelo celular. Na prática, isso significa mais segurança quando a jovem está sozinha, com amigas, na praia, em uma festa ou até dirigindo.
O relato de Meriele escancara o medo silencioso que acompanha muitas famílias. Como Camila nem sempre percebe os sinais de uma hipoglicemia, a preocupação maior é com situações em que a queda aconteça de madrugada ou em momentos de deslocamento. Segundo a mãe, sem o monitoramento contínuo, uma crise pode evoluir de forma grave antes mesmo de ser percebida.
Além da angústia, há o peso financeiro. De acordo com Meriele, cada sensor custa em torno de R$ 340 a R$ 350 e dura aproximadamente 14 dias. Para manter o uso ao longo de um mês, o gasto pode chegar a cerca de R$ 700, valor elevado para grande parte das famílias. No caso do diabetes tipo 1, ela lembra que a despesa não se resume ao aparelho: há insulina, alimentação específica, consultas, exames frequentes e acompanhamento multiprofissional.
A mãe também chama atenção para outra realidade pesada da doença: quando não está com o sensor, a filha chega a furar o dedo até 12 vezes por dia para medir a glicose. Antes de comer, depois de comer, ao sentir qualquer alteração ou simplesmente para garantir que está tudo sob controle. “O pâncreas dela hoje é ela, é a caneta de insulina”, resumiu, ao mostrar como o tratamento exige vigilância permanente.
O vereador afirmou que a audiência nasceu justamente do choque ao conhecer mais de perto a realidade do diabetes tipo 1. Segundo ele, a proposta é sensibilizar o poder público municipal e também ampliar a pressão sobre outras esferas para que o sensor seja fornecido gratuitamente.
Casos em Brusque
De acordo com Joubert, um levantamento solicitado à Secretaria de Saúde apontou cerca de 470 pacientes com diabetes tipo 1 em Brusque, com idades entre 0 e 92 anos. O dado reforça que a discussão não envolve casos isolados, mas centenas de famílias que convivem com uma doença crônica, exigente e de alto custo.

Na avaliação do vereador, a falta do sensor compromete diretamente a qualidade de vida de quem depende do controle glicêmico constante. Ele também destacou que, hoje, muitas famílias precisam recorrer à via judicial para tentar obter o aparelho, o que torna o acesso ainda mais desigual e desgastante.
Outro ponto levantado por Joubert é a preocupação com o abastecimento de insulina nas farmácias públicas. Segundo ele, o tema também deve entrar nas discussões da comissão ligada à saúde, já que a continuidade do tratamento depende não apenas da tecnologia, mas do fornecimento regular dos insumos básicos.
Diabetes tipo 1
O diabetes tipo 1 é uma doença em que o organismo deixa de produzir insulina, hormônio essencial para controlar a glicose no sangue. Por isso, a pessoa precisa usar insulina diariamente para sobreviver. Os sintomas podem surgir de forma rápida e intensa.
Entre os sinais mais comuns estão sede constante, fome frequente, vontade de urinar várias vezes ao dia, perda de peso, fraqueza, fadiga, mudanças de humor, náusea e vômito.
Em quadros de hipoglicemia, a pessoa pode apresentar tremores, suor, tontura, irritabilidade, confusão e fome intensa. Já quando o diabetes não é tratado adequadamente, pode haver complicações graves.
É justamente por isso que o debate em Brusque ganha peso social. Para as famílias, o sensor não representa conforto ou luxo. Representa prevenção. Representa autonomia. Representa o direito de uma criança ir à escola com mais segurança, de uma adolescente sair de casa sem carregar medo, de uma mãe conseguir trabalhar sem viver em alerta permanente.
Audiência pública

A audiência pública do dia 19 de março, às 19h, na Câmara de Vereadores de Brusque, pretende transformar essa dor em cobrança concreta. O convite dos organizadores é para que a comunidade participe, vista azul ou utilize a camiseta da Associação Rede Dedicar, e ajude a dar visibilidade a uma causa que, para quem vive o diabetes tipo 1, não pode mais esperar.





