A audiência pública realizada na noite desta quinta-feira, 19, na Câmara de Brusque escancarou uma realidade que muitas famílias vivem em silêncio: a rotina de medo, noites mal dormidas, cálculos diários e o receio constante de perder um filho para uma hipoglicemia durante a madrugada. A reunião foi resultado de um requerimento dos vereadores Joubert Lungen (Podemos), Antônio Roberto(PRD) e Jean Pirola(União Progressista)
Mais do que um debate técnico, o encontro foi marcado por relatos fortes de mães, pacientes, médicos e lideranças que defendem o acesso ao sensor de monitoramento contínuo da glicose como uma ferramenta de segurança, dignidade e preservação da vida para pessoas com diabetes tipo 1.
Ao longo da audiência, o que se ouviu no plenário foi o retrato de famílias exaustas. Mães que dormem no chão do quarto dos filhos, pais que vivem em estado de alerta e crianças que, antes mesmo de aprenderem a ler e escrever, já precisam entender agulhas, insulina, números e riscos.
A endocrinologista pediátrica Júlia Carpanese La pastina, diretora científica da Rede Dedicar e da Sociedade Brasileira de Diabetes em Santa Catarina, levou ao plenário histórias que traduziram o peso da doença. Uma delas foi a do pequeno Teodoro, de apenas quatro anos, que já sabe furar o próprio dedo. Outra foi a de Heloíse, que sofreu uma convulsão durante a madrugada após uma hipoglicemia. Segundo a médica, se a menina estivesse usando sensor, o equipamento teria emitido um alerta antes que a situação chegasse ao ponto crítico.
A fala da médica deu voz a um sentimento que se repetiu durante toda a noite: o de que o sensor não pode ser tratado como conforto ou luxo, mas como um recurso capaz de evitar emergências, dar mais precisão ao tratamento e aliviar uma rotina marcada pelo medo.
Esse sentimento apareceu com força também nos depoimentos das mães. Adriana Miller, mãe de uma criança diagnosticada em março de 2022, afirmou que o diabetes mudou tudo dentro de casa: a rotina, o sono, a forma de viver e o olhar para o futuro. Em sua fala, resumiu o que muitas famílias sentem ao dizer que o sensor “não tira o diabetes, mas tira o medo constante”.
Camille Vitória, de 19 anos, também relatou a pressão permanente de quem convive com a doença. Disse que o diabético tipo 1 vive em vigilância o tempo todo, sem pausas, sem descanso e sem férias. Em seu depoimento, destacou que o sensor representa mais do que tecnologia: representa segurança, dignidade e qualidade de vida.
Já Meriele Schmitz, mãe de Camille, fez um dos relatos mais emocionantes da noite. Disse que o coração se aperta a cada hipo ou hiperglicemia e revelou o pavor de acordar de madrugada e encontrar a filha em coma. Ao lembrar que a filha é assintomática durante algumas crises noturnas, ela resumiu o sentimento de muitas mães presentes: “isso me apavora”. Também relatou que, na noite anterior, o sensor alertou para uma hipoglicemia de 49, situação que, sem o equipamento, poderia ter tido desfecho ainda mais grave.
Outro momento de forte comoção veio com a fala de José Carlos Bittencourt, pai de uma jovem diagnosticada aos 13 anos. Ele disse que ainda hoje a filha de 18 anos dorme com os pais e afirmou que está disposto a “dar a vida” por essa causa. Ao perguntar se o diabetes tipo 1 tem cura, ouviu do endocrinologista Frederico Marxotti a confirmação de que, infelizmente, a doença ainda não tem cura, o que tornou ainda mais evidente a importância de ampliar os meios de controle e proteção.
Na parte técnica, Frederico Marchisotti defendeu a adoção do sensor pelo poder público, afirmando que o monitoramento contínuo da glicose reduz episódios de hipoglicemia, melhora o controle glicêmico, ajuda na prevenção de complicações e pode diminuir internações e custos a longo prazo. Segundo ele, a tecnologia já tem respaldo científico suficiente para justificar sua adoção, especialmente em pacientes com diabetes tipo 1 e em gestantes que usam insulina de forma intensiva.
Apesar da pressão das famílias e da defesa médica, a audiência também deixou claro que Brusque não pretende, ao menos neste momento, garantir oferta ampla e permanente do equipamento. A farmacêutica Tereza, da Secretaria de Saúde, afirmou que a estimativa do município é de cerca de 150 pacientes aptos a usar o sensor, com custo aproximado de R$ 100 mil por mês, valor que hoje não poderia ser sustentado de forma contínua pela estrutura municipal.
Diante disso, a diretora-geral de Saúde, Inajá Gonçalves de Araújo, anunciou que a prefeitura pretende utilizar uma emenda parlamentar de R$ 400 mil para criar um projeto-piloto assistencial, temporário e avaliativo em Brusque. Segundo ela, a proposta é iniciar a dispensação dos sensores para um público específico, com prioridade inicial para crianças e adolescentes.
A ideia, conforme foi dito na audiência, é que esse projeto tenha caráter de estudo técnico, com apoio de uma universidade da região, para produzir dados que possam ser levados ao Ministério da Saúde e utilizados como argumento em favor da incorporação do sensor à política pública em escala maior. Inajá também afirmou que, caso novos recursos sejam obtidos, outros públicos poderão ser incluídos futuramente, como gestantes e idosos acima de 60 anos.
Outro ponto destacado foi que o sensor ainda não está incorporado ao SUS em nível nacional, o que, segundo a própria gestão municipal, dificulta que os municípios arquem sozinhos com o custo. A diretora citou ainda que foi aberta uma chamada pública do Ministério da Saúde para novo estudo sobre o tema e disse que Brusque pretende usar os dados do projeto local para reforçar essa discussão.
O deputado estadual Lucas Neves (Podemos), que participou da audiência, afirmou que a causa precisa ser tratada como uma bandeira humana, e não política. Também defendeu que o sensor não é luxo, mas dignidade, e citou projetos e articulações em andamento em outras regiões do estado.
Ao fim da audiência, a Câmara informou que será elaborado um relatório final com as demandas levantadas no encontro. O documento deverá ser encaminhado à Comissão de Saúde do Legislativo, além de gestores da saúde do município, do Estado e do governo federal.
Depois de quase duas horas e meia de audiência, o que ficou no plenário não foi apenas a discussão sobre orçamento ou tecnologia. O que ficou foi o peso de relatos de mães que não dormem, de crianças que convivem cedo demais com a dor e de famílias que pedem, antes de qualquer coisa, o direito de viver com um pouco menos de medo.




