A Prefeitura de Brusque anunciou nesta quarta-feira (28) o médico Pedro Medeiros como novo secretário municipal de Saúde. A mudança ocorre apenas um dia após a saída de Ricardo Alexandre Freitas, que deixou o comando da pasta na terça-feira (27).
O novo secretário já conhece parte da realidade da saúde pública municipal. Desde 2024, Pedro Medeiros atua como médico efetivo da Rede Municipal de Saúde, exercendo suas atividades no Pronto Atendimento 24 horas.
Formado em Medicina pelo Centro Universitário UNICEPLAC, ele também possui graduação em Economia pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-graduação em Urgência e Emergência pela Faculdade Alfa-América.
A combinação das formações em Medicina e Economia poderá contribuir para a administração de uma das áreas mais complexas da estrutura municipal, que exige conhecimento técnico, planejamento financeiro e capacidade de gestão.
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Entretanto, a experiência na assistência médica será colocada à prova em uma função que envolve decisões administrativas, articulação política e respostas às demandas de milhares de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Mudança ocorre após saída de Ricardo Freitas
A nomeação acontece depois que a Prefeitura confirmou, na terça-feira (27), o desligamento de Ricardo Alexandre Freitas.
Médico infectologista, Freitas havia assumido a Secretaria Municipal de Saúde em maio de 2025, durante a administração do prefeito André Vechi (PL).
Na ocasião do anúncio de sua saída, a Prefeitura informou que a diretora-geral da pasta, Inajá Araújo, responderia interinamente pela secretaria até a definição de um novo titular.
A escolha de Pedro Medeiros, anunciada no dia seguinte, representa mais uma mudança no comando da Saúde durante a atual gestão municipal.
Filas de consultas e exames estão entre os maiores desafios
Um dos principais problemas que Pedro Medeiros encontrará é a demanda reprimida por consultas, exames e procedimentos especializados.
Em reportagem publicada pelo Olhar do Vale, com base em documentos oficiais da própria Secretaria Municipal de Saúde, foram identificados mais de 40 mil registros de solicitações relacionadas a consultas, exames, retornos e procedimentos.
O levantamento referente a julho de 2026 apontou 24.830 registros de primeiras consultas e exames, além de 14.075 solicitações de retornos de especialidades nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
O documento também apresentava 1.194 registros relacionados à demanda por cirurgia bariátrica.
Entre os serviços com maior volume de solicitações estavam a fisioterapia, com 4.570 registros; a fonoaudiologia, com 2.349; e a ressonância magnética, com 2.231.
Os números representam solicitações acumuladas no período analisado e não necessariamente pacientes distintos. Ainda assim, demonstram a dimensão do desafio enfrentado pela rede municipal.
Embora os dados sejam de julho e possam ter sofrido alterações nos meses seguintes, eles oferecem um retrato das dificuldades que a nova administração precisará enfrentar.
Reduzir o tempo de espera, ampliar o acesso aos especialistas e garantir maior agilidade na realização de exames devem estar entre as prioridades da gestão.
Problemas nas UBSs também exigem atenção
A estrutura e o funcionamento das Unidades Básicas de Saúde representam outro desafio importante.
Ao longo de 2026, problemas relacionados à demora nos atendimentos, à disponibilidade de profissionais e às condições estruturais de algumas unidades foram discutidos no âmbito da Comissão Especial da Saúde da Câmara de Vereadores de Brusque.
Entre as questões levantadas durante os trabalhos de fiscalização estão a necessidade de ampliar a capacidade de atendimento, melhorar a organização dos serviços e acompanhar intervenções estruturais em unidades da rede.
A atenção básica desempenha um papel fundamental na prevenção de doenças e no acompanhamento dos pacientes. Quando esse atendimento apresenta dificuldades, a pressão sobre os serviços de urgência e emergência pode aumentar.
Por atuar no Pronto Atendimento 24 horas, Pedro Medeiros chega ao cargo com experiência direta no atendimento aos usuários. O desafio agora será transformar esse conhecimento em medidas capazes de melhorar o funcionamento de toda a rede municipal.
Gestão financeira e cobranças por resultados
Além das dificuldades assistenciais, o novo secretário terá de lidar com a administração financeira da pasta.
A aplicação dos recursos públicos, a contratação de profissionais, a manutenção das unidades e a ampliação da oferta de serviços exigem planejamento em um cenário de demanda crescente.
Em agosto, o Olhar do Vale também revelou informações sobre os custos da nova sede administrativa da Secretaria de Saúde, cujo contrato de locação prevê aluguel mensal de R$ 55 mil.
Na ocasião, documentos analisados pela reportagem apontavam valores empenhados relacionados à estrutura, enquanto milhares de solicitações permaneciam nas filas de atendimento.
Outro ponto sensível será o relacionamento com o Conselho Municipal de Saúde (Comusa), os servidores e o Poder Legislativo.
Durante audiência pública realizada em agosto, a condução da secretaria foi alvo de questionamentos. O vice-presidente do Comusa, Juarez Graczcki, fez críticas à gestão e cobrou maior dedicação ao comando da pasta, manifestação contestada pelo então secretário Ricardo Freitas.
O episódio evidenciou divergências que também fazem parte do ambiente administrativo e político que o novo gestor encontrará.
Sobrecarga, falta de estrutura e servidores que pedem para ser ouvidos
Outro desafio que Pedro Medeiros encontrará à frente da Secretaria Municipal de Saúde é a insatisfação manifestada por profissionais da própria rede pública.
Em reportagem publicada pelo Olhar do Vale em 24 de agosto, servidores relataram sobrecarga de trabalho, limitações na estrutura das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), dificuldades no modelo de atendimento e falta de participação dos trabalhadores nas decisões da gestão.
As manifestações ocorreram durante audiência pública promovida pela Comissão Especial da Saúde da Câmara de Vereadores, realizada em 20 de agosto, após visitas dos parlamentares às 27 UBSs do município.
Uma das profissionais que se manifestaram foi a enfermeira Cláudia Carraro, da UBS Ponta Russa. Ela criticou a transformação das unidades básicas em estruturas cada vez mais voltadas ao atendimento de demandas imediatas, em prejuízo do trabalho preventivo e do acompanhamento contínuo dos pacientes.
“As UBSs se tornaram mini UPAs. E não é o nosso objetivo”, afirmou durante a audiência.
A profissional também relatou desgaste emocional, conflitos com usuários e a necessidade de maior proteção e valorização dos servidores.
A enfermeira Daiana Paixão chamou a atenção para outro problema: embora o município tenha ampliado o número de profissionais de saúde, essa expansão, segundo ela, não foi acompanhada proporcionalmente pelo aumento da estrutura física, de servidores administrativos e da oferta de exames.
Daiana também questionou a participação dos trabalhadores na elaboração das políticas públicas de saúde.
“Não há planejamento sem ouvir os profissionais que estão na ponta, e nós não estamos sendo ouvidos. Os planejamentos não estão ocorrendo com a nossa participação”, declarou.
A agente comunitária de saúde Cátia Regina dos Santos Elias, com 20 anos de serviço, também demonstrou preocupação com o funcionamento da atenção básica. Segundo ela, a perda de capacidade das UBSs para resolver determinadas demandas tem contribuído para aumentar os encaminhamentos a especialistas e, consequentemente, pressionar as filas.
Durante a mesma audiência, o presidente da Comissão Especial da Saúde, vereador Joubert Lungen (Podemos), afirmou ter percebido receio entre alguns servidores em relatar problemas durante as visitas realizadas às unidades.
Na ocasião, a então diretora-geral da Saúde, Inajá Araújo, contestou a percepção de falta de diálogo e afirmou que a gestão mantinha canais de comunicação com os profissionais. Ela, entretanto, reconheceu a existência de filas e limitações de espaço físico em determinadas UBSs.
O episódio evidencia que os desafios da nova gestão vão além da contratação de profissionais e da ampliação de atendimentos.
Pedro Medeiros também terá a missão de fortalecer o diálogo com as equipes, avaliar as condições de trabalho e buscar soluções para problemas estruturais relatados por servidores.
Por integrar o quadro efetivo da rede municipal desde 2024, o novo secretário chega ao cargo com experiência na assistência direta aos pacientes. Resta saber como essa vivência será traduzida em medidas administrativas capazes de atender às reivindicações dos profissionais e melhorar os serviços oferecidos à população.
A expectativa agora é saber se a mudança no comando da pasta também representará uma nova relação entre a administração municipal e os trabalhadores que estão diariamente na linha de frente do SUS.



