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Saúde de Brusque acumula mais de 40 mil consultas, exames e retornos na fila; nova sede custa R$ 55 mil por mês e já soma R$ 513 mil em empenhos

Relatório da própria Secretaria de Saúde aponta filas que remontam a 2018; além do aluguel de R$ 660 mil no primeiro ano, município já empenhou R$ 513 mil para estruturar o novo prédio administrativo.

Nova sede administrativa da Secretária da Saúde de Brusque. Prédio está em reforma. Foto: Anderson Vieira/Olhar do Vale

Enquanto milhares de moradores aguardam consultas, exames e retornos na rede pública de Saúde de Brusque, a Secretaria Municipal de Saúde prepara a transferência de sua estrutura administrativa para um novo prédio no Centro da cidade.

Documentos analisados pelo Olhar do Vale revelam dois cenários que caminham paralelamente: de um lado, um relatório da própria Saúde referente a julho de 2026 registra 24.830 demandas represadas em primeiras consultas e exames, 14.075 retornos de especialidades nas UBS e outras 1.194 demandas em cirurgia bariátrica. Somados, são 40.099 registros de demanda.

Do outro, a nova sede administrativa da Secretaria de Saúde terá aluguel de R$ 55 mil mensais, ou R$ 660 mil no período inicial de 12 meses. Além disso, um relatório do Fundo Municipal de Saúde relaciona R$ 513.310 em empenhos destinados à estruturação do novo endereço.

Considerando o valor global do primeiro ano da locação e os empenhos já relacionados à implantação da estrutura, o montante chega a R$ 1.173.310.

Isso não significa, entretanto, que R$ 1,17 milhão já tenha sido efetivamente pago. Os R$ 660 mil correspondem ao compromisso contratual para 12 meses de aluguel, enquanto os R$ 513.310 aparecem nos documentos como valores empenhados.

Quase 25 mil demandas só em primeiras consultas e exames

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O documento “Demanda represada Julho 2026” apresenta um total de 24.830 registros apenas no grupo de primeiras consultas e exames.

A maior fila é a de fisioterapia, com 4.570 registros e data mais antiga apontada como fevereiro de 2024.

Na sequência aparecem fonoaudiologia, com 2.349 registros, e ressonância magnética, com 2.231. A fila de fonoaudiologia registra como demanda mais antiga junho de 2023, enquanto a de ressonância magnética remonta a agosto de 2025.

A ultrassonografia de articulação aparece com 1.623 registros, e a endoscopia digestiva alta, com 1.161.

Há ainda 977 demandas por pequena cirurgia, crioterapia , e 877 registros de primeira consulta em psiquiatria infantil/CRESI/AMA.

Outros números também chamam atenção.

A dermatologia registra 583 primeiras consultas, com data mais antiga de agosto de 2023. Já a neurologia pediátrica apresenta 546 registros, com data mais antiga indicada como outubro de 2022. Colonoscopia soma 491 registros, com referência mais antiga a junho de 2024.

Retornos acumulam mais de 14 mil registros

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O segundo grande bloco do relatório trata de retornos de especialidades realizados nas UBS. São 14.075 registros.

Vascular lidera com 2.393, seguido de ortopedia, com 2.369; pediatria, com 1.634; cardiologia, com 1.586; endocrinologia, com 1.377; e gastroenterologia, com 1.057.

As datas registradas na coluna “Data + antiga” chamam ainda mais atenção. Em vascular, o registro mais antigo aparece como maio de 2022. Cardiologia tem outubro de 2022; endocrinologia, março de 2022; e gastroenterologia, fevereiro de 2022.

Em otorrinolaringologia, o relatório registra 818 retornos e aponta 1º de julho de 2018 como a data mais antiga.

O Olhar do Vale questionou o secretário municipal de Saúde sobre o significado exato dessas datas e perguntou especificamente se ainda existem pacientes aguardando retorno solicitado desde 2018.

Não houve resposta.

O relatório também apresenta 1.194 demandas de alta complexidade para consulta em cirurgia bariátrica, com referência mais antiga a julho de 2024.

Importante destacar que os 40.099 registros não podem ser apresentados como 40.099 pessoas diferentes, já que o documento não esclarece se um mesmo paciente pode constar simultaneamente em mais de uma fila.

Novo administrativo custará R$ 55 mil por mês

Em meio ao cenário de demanda reprimida, a Secretaria de Saúde está transferindo seu setor administrativo para o Edifício Boing, localizado na rua Adriano Schaefer, nº 155, no Centro.

A locação foi firmada pelo Fundo Municipal de Saúde com a Savife Participações Ltda. por meio da Inexigibilidade de Licitação nº 001/2026. O contrato tem duração inicial de 12 meses.

O aluguel foi fixado em R$ 55 mil mensais, totalizando R$ 660 mil durante os 12 primeiros meses. O valor foi estabelecido a partir de avaliação da Comissão de Avaliação de Imóveis do município.

Mais de R$ 513 mil para estruturar o prédio

O aluguel está longe de ser a única despesa relacionada à nova sede. Relatório do Fundo Municipal de Saúde totaliza R$ 513.310 em empenhos relacionados ao novo endereço administrativo.

As despesas incluem climatização, equipamentos de informática, estrutura de rede, mobiliário, videomonitoramento, televisores, bebedouros e outros itens.

Somente em equipamentos novos de climatização aparecem três aquisições que totalizam 54 aparelhos de ar-condicionado.

Uma das compras prevê 18 equipamentos de 12 mil BTUs e um de 9 mil BTUs, por R$ 35.015,38. Outra aquisição contempla 16 aparelhos de 18 mil BTUs, por R$ 42.079,84. Em agosto, foi empenhada ainda a compra de 19 aparelhos de 24 mil BTUs, por R$ 75.810.

O relatório ainda apresenta despesas com móveis. São R$ 39 mil para 38 mesas de trabalho e duas mesas em L, além de R$ 37 mil destinados a 38 gaveteiros e 18 armários baixos.

Outro empenho, de R$ 51.555,20, prevê a aquisição de 40 cadeiras descritas tecnicamente no documento como modelo “diretor”, com espaldar alto, tela, braços reguláveis, regulagem de inclinação e apoio lombar.

Também foram adquiridas duas Smart TVs de 75 polegadas, por R$ 8.372, além de uma televisão de 32 polegadas.

Um sistema de videomonitoramento com NVR, 32 câmeras IP e disco rígido de 8 TB aparece por R$ 8.782,72.

Prefeitura diz que mudança permitirá ampliar atendimentos

A justificativa apresentada no próprio contrato afirma que a mudança pretende concentrar as demandas administrativas em outro imóvel e, dessa forma, liberar espaços atualmente utilizados pela administração para atendimentos clínicos.

O documento sustenta que isso contribuiria para ampliar a capacidade de atendimento direto ao cidadão.

A atual sede, entretanto, já comporta atendimentos à população, conforme apuração do Olhar do Vale.

Por isso, uma das principais perguntas encaminhadas pela reportagem foi quantos novos serviços e quantas novas vagas mensais serão efetivamente criados com a retirada do administrativo do atual endereço.

Também foi questionado qual será o impacto mensurável da mudança sobre as filas apresentadas pela própria Secretaria.

O secretário não respondeu.

Município assume adaptações e manutenção

O contrato também estabelece que benfeitorias, adaptações e melhorias realizadas pela Prefeitura no imóvel serão executadas às custas do município e, salvo disposição expressa em contrário, não darão direito a indenização ou ressarcimento.

Ao final da locação, o município poderá ainda ter de recompor o layout original e desfazer adaptações realizadas no prédio caso o proprietário não opte pela manutenção das melhorias.

A Prefeitura também assume a manutenção do imóvel e todos os custos de manutenção preventiva e corretiva do elevador.

Outra cláusula determina a contratação de seguro do imóvel em valor compatível com seu valor integral.

Contrato reconhece que imóvel está em área sujeita a cheias

Outro ponto destacado pela reportagem é que o próprio contrato registra que o Edifício Boing está localizado em área sujeita a cheias.

Pelo documento, eventuais reparos causados por cheias ficam sob responsabilidade da municipalidade, e essa condição não poderá, por si só, ser utilizada como motivo para suspensão ou rescisão do contrato.

A cláusula seguinte também atribui ao locatário responsabilidades por danos decorrentes de enchentes, enxurradas, cheias, vendavais e outros eventos.

A reportagem perguntou ao secretário por que, diante dessa condição, o imóvel foi considerado a alternativa mais vantajosa.

Não houve resposta.

Perguntas enviadas para o secretário de Saúde e não respondidas

O Olhar do Vale encaminhou diretamente ao secretário municipal de Saúde, Ricardo Alexandre Freitas, uma relação de questionamentos sobre as filas da Saúde, os custos da nova sede e os benefícios esperados com a mudança.

Foi concedido prazo até as 12h desta segunda-feira (17) para manifestação.

Até 16h00, quatro horas após o término do prazo informado, nenhuma das perguntas havia sido respondida.

A reportagem encaminhou os seguintes questionamentos:

1. O relatório “Demanda represada Julho 2026”, da própria Secretaria de Saúde, aponta 24.830 registros de espera em primeiras consultas e exames, além de 14.075 retornos de especialidades nas UBS e 1.194 registros de demanda em cirurgia bariátrica. Como a Secretaria avalia esse cenário?

2. Somados, esses três grupos representam 40.099 registros de demanda. Esses números correspondem a pacientes distintos ou uma mesma pessoa pode aparecer em mais de uma fila?

3. O documento apresenta filas com datas antigas de 2022, 2023 e 2024. No caso dos retornos em otorrinolaringologia, consta como data mais antiga 1º de julho de 2018. Esse dado está correto? Existem atualmente pacientes aguardando atendimento ou retorno solicitado desde 2018?

4. Em neurologia pediátrica, o documento registra 546 pessoas em espera e data mais antiga de outubro de 2022. Em fonoaudiologia são 2.349 registros, com fila remontando a junho de 2023. Quais medidas estão sendo adotadas especificamente para reduzir essas filas mais antigas?

5. A fisioterapia apresenta 4.570 registros de espera; a ressonância magnética, 2.231; a ultrassonografia de articulação, 1.623; e a endoscopia digestiva alta, 1.161. Existe previsão ou meta para redução dessas demandas? Em qual prazo?

6. Algumas linhas de um relatório identificado como “Demanda represada Julho 2026” apresentam datas de agosto de 2026 na coluna “Data + antiga”. O que exatamente representa essa coluna e por que aparecem datas posteriores a julho?

7. Paralelamente a esse cenário, a Secretaria está transferindo sua estrutura administrativa para o Edifício Boing, com aluguel de R$ 55 mil mensais, totalizando R$ 660 mil no período inicial de 12 meses. Como a Secretaria justifica essa despesa diante do atual volume de demanda represada na rede?

8. Relatório do Fundo Municipal de Saúde aponta ainda R$ 513.310 em empenhos relacionados à estruturação da nova sede, incluindo mobiliário, climatização, equipamentos de informática, rede lógica, videomonitoramento e outros itens. Quanto desse valor já foi liquidado e efetivamente pago? Existem novas despesas ainda previstas para colocar o prédio em funcionamento?

9. Somados o valor global do primeiro ano do aluguel e os empenhos já relacionados à implantação da nova estrutura, o montante chega a aproximadamente R$ 1,17 milhão. Qual benefício direto e mensurável essa mudança trará ao usuário do SUS em Brusque?

10. O contrato de locação afirma que a transferência do administrativo permitirá liberar espaço na atual sede para ampliar atendimentos clínicos. Considerando que a estrutura atual já comporta atendimentos à população, quais novos serviços serão implantados ali depois da mudança?

11. Quantas novas vagas ou atendimentos mensais serão efetivamente criados com a liberação do espaço atualmente ocupado pelo administrativo? Há estudo, planejamento ou projeção que quantifique esse aumento?

12. A mudança contribuirá diretamente para reduzir alguma das filas relacionadas no relatório de demanda reprimida? Quais filas e qual a estimativa de redução?

13. Foram analisadas alternativas à locação do Edifício Boing, como utilização, reforma, ampliação ou reorganização de imóveis próprios do município? Quais imóveis ou alternativas foram avaliados e por que foram descartados?

14. Existe estudo técnico demonstrando que pagar R$ 55 mil mensais pela locação, além dos investimentos necessários para estruturar o imóvel, representa a alternativa economicamente mais vantajosa para o município? Em caso positivo, a Secretaria pode disponibilizar esse estudo?

15. O próprio contrato reconhece que o imóvel está localizado em área sujeita a cheias e atribui ao município responsabilidades por determinados danos decorrentes de enchentes e cheias. Por que esse imóvel foi considerado adequado e vantajoso mesmo diante dessa condição?

16. Qual é a data prevista para a conclusão da mudança para o Edifício Boing e para o início dos novos atendimentos que deverão ocupar os espaços liberados na sede atual?

O espaço permanece aberto para manifestação da Secretaria Municipal de Saúde. Caso as respostas sejam encaminhadas posteriormente, a reportagem poderá ser atualizada.

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