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Brusque, 166 anos: festa para um dia, problemas para o ano inteiro

Enquanto a Prefeitura concentra quase R$ 1 milhão (até agora) em uma única noite, artistas locais, bairros, Saúde e infraestrutura seguem esperando investimentos e respostas.

Foto: Divulgação.

Brusque chega aos 166 anos com motivos de sobra para celebrar sua história. Uma cidade construída pelo trabalho, pela indústria, pelo comércio e, principalmente, pelo esforço diário de milhares de pessoas que enfrentam dificuldades sem esperar que o poder público faça tudo por elas.

O aniversário de um município deve ser um momento de encontro, memória e orgulho. É legítimo promover shows, desfiles, atividades culturais e espaços de convivência. No entanto, temos um problema. A festa deixou de ser parte da comemoração e passou a funcionar como uma cortina diante dos problemas que a administração municipal ainda não conseguiu resolver.

Para celebrar os 166 anos, a Prefeitura colocou Michel Teló como principal atração nacional. A contratação do artista foi fechada por R$ 400 mil. Somada à estrutura homologada por R$ 377.785, a despesa pública já identificada alcança R$ 777.785. Considerando outros gastos necessários para a realização do evento, a conta se aproxima de R$ 1 milhão ou passará disso.

Não se trata de questionar o artista, sua qualidade ou o direito da população ao entretenimento. Também não se pode aceitar o argumento conveniente de que, por se tratar de verba destinada ao turismo ou à cultura, qualquer gasto se torna automaticamente bem empregado.

Orçamento público é resultado de escolhas. A administração suplementa dotações, remaneja recursos, altera planejamentos e define onde concentrará seu esforço político. Portanto, dizer que o dinheiro “é da cultura e deve ser gasto com cultura” não encerra a discussão. Pelo contrário: faz surgir uma pergunta ainda mais importante.

Por que quase R$ 1 milhão não poderia ser dividido entre dezenas de artistas locais, bandas, músicos, grupos de teatro, dança e manifestações culturais da própria cidade?

Esse recurso poderia financiar apresentações durante vários meses, levar cultura aos bairros, criar programações nas praças, escolas e comunidades, estimular novos talentos e garantir renda para profissionais que vivem da arte em Brusque. Em vez de concentrar praticamente todo o investimento em uma única noite e em um artista de fora, a Prefeitura poderia transformar o aniversário em uma política de valorização permanente da cultura local.

Essa seria uma escolha capaz de deixar um legado. O dinheiro continuaria sendo aplicado em cultura, como gostam de repetir os defensores da administração, mas seria distribuído entre quem produz cultura na cidade durante o ano inteiro.

Inclusive, chama a atenção ver ocupantes de cargos comissionados, que são pessoas remuneradas com o dinheiro dos contribuintes para exercer funções na Prefeitura, usando as redes sociais para defender o prefeito e repetir que “o dinheiro da cultura precisa ir para a cultura”.

Se esse é realmente o argumento, por que não defender que o dinheiro chegue aos artistas brusquenses? Por que não fomentar a cultura nos bairros? Por que não criar oportunidades para músicos, atores, dançarinos, artesãos e produtores locais? Por que a única escolha possível parece ser sempre um grande palco, um nome nacional e algumas horas de espetáculo?

A cultura deveria estar presente durante todo o ano, fortalecendo as bandas da cidade, os grupos de teatro, dança, música, folclore e as entidades que mantêm viva a identidade brusquense.

Enquanto isso, a Saúde ainda carrega perguntas que não foram respondidas de maneira satisfatória. Documentos analisados pelo Olhar do Vale apontaram um reforço de R$ 22,7 milhões no orçamento da área, em meio à discussão sobre um déficit estimado em aproximadamente R$ 20 milhões. Porém, isso não diminuiu o prazo para que pessoas tivessem acesso a exames. Em fevereiro de 2026, a demanda reprimida chegava a 47.986 procedimentos, incluindo exames laboratoriais, fisioterapia, consultas especializadas e ressonâncias magnéticas. E isso não foi sanado. Aliás, só piora.

Para quem espera meses por um exame, uma consulta ou um procedimento, o problema não é abstrato. Ele tem nome, dor e consequência. É difícil convencer essa pessoa de que as prioridades estão corretas quando quase R$ 1 milhão é mobilizado em torno de uma apresentação enquanto milhares aguardam atendimento.

Nos bairros, a população também convive com alagamentos, deslizamentos, tubulações rompidas, problemas de drenagem e obras que nem sempre entregam as soluções prometidas. Em diferentes pontos do município, basta uma chuva mais forte para que antigos problemas voltem a aparecer.

Na mobilidade urbana, a retirada da ciclofaixa da Avenida Primeiro de Maio mostrou outra contradição. Primeiro se elimina uma estrutura utilizada pela população. Depois, vereadores precisam apresentar requerimentos pedindo novos estudos para devolver segurança aos ciclistas.

Esses exemplos não significam que os recursos do show resolveriam, sozinhos, todos os problemas da cidade. Esse argumento também seria desonesto. A questão é o conjunto das decisões e a mensagem transmitida por elas.

Uma administração revela suas prioridades não apenas nos discursos, mas na velocidade com que age. Para determinadas festas, há anúncio, contratação, palco, estrutura e divulgação. Para problemas antigos dos bairros, frequentemente há estudo, comissão, promessa, justificativa e espera. E não podemos esquecer da velocidade em que foi asfaltado o estacionamento da Fenarreco para receber o show. “Ah, mas isso é material reaproveitado, não teve custo”. Então, por que não usar esse material para tampar os zilhões buracos da cidade com a mesma agilidade. É um desvio total de prioridade.

Brusque não precisa escolher entre cultura e saúde, entre comemoração e infraestrutura ou entre lazer e responsabilidade fiscal. Uma cidade com orçamento robusto deve ser capaz de cuidar de todas essas áreas. Mas isso exige planejamento, transparência, equilíbrio e, principalmente, coragem para definir o que vem primeiro. E isso falta e muito na administração municipal.

O aniversário deveria servir também para uma reflexão. Que cidade estamos entregando para quem acorda cedo, paga impostos e mantém Brusque funcionando? Uma cidade que enfrenta seus problemas ou uma administração que prefere produzir eventos capazes de ocupar as redes sociais?

Hoje, a Prefeitura corta a cuca, promove desfile, monta o palco e divulga a festa. Amanhã, porém, continuarão existindo as filas da Saúde, os problemas de drenagem, os buracos, os gargalos da mobilidade e as cobranças por transparência. Até porque no momento eu só vi o tal do asfaltaço acima de asfaltos, nada se construiu nos bairros.

Brusque merece comemorar seus 166 anos. Merece música, cultura, alegria e encontro. Mas merece, sobretudo, uma administração que compreenda que governar não é entregar algumas horas de espetáculo. É fazer com que a cidade funcione nos outros 364 dias do ano.

Parabéns, Brusque. A homenagem mais justa à sua história seria uma gestão com prioridades à altura de sua população.

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