O que antes o Samae de Brusque evitou explicar publicamente ao Olhar do Vale agora aparece confirmado em documento oficial encaminhado à Câmara Municipal. Em resposta a um pedido de informação da vereadora Bete Eccel (PT), a autarquia admitiu que instaurou procedimento administrativo para apurar a denúncia de possível furto de água envolvendo um servidor ligado à estrutura do próprio Samae.
O caso foi revelado com exclusividade pelo Olhar do Vale em abril, quando a reportagem mostrou que um servidor da autarquia era alvo de uma notícia-crime encaminhada ao Ministério Público de Santa Catarina sob suspeita de fraude no consumo de água, abuso de autoridade e possível coação de testemunhas. Na ocasião, o diretor-presidente do Samae, Rodrigo Cesari, foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até o fechamento da matéria.
Agora, no Ofício nº 026/2026, assinado pelo próprio Rodrigo Cesari e enviado ao presidente da Câmara, Jean Carlo Dalmolin, o Samae confirma que foi instaurada a Sindicância Investigativa PA SINVE nº 068/2026, por meio da Portaria nº 142/2026, publicada em 25 de fevereiro de 2026.
Segundo a resposta oficial, o procedimento está em andamento e tem previsão de encerramento até 23 de junho de 2026, conforme a Portaria nº 202/2026. Após a conclusão da fase investigativa, a comissão deverá elaborar relatório final com a descrição dos fatos apurados e eventual sugestão de providências à autoridade competente, que terá prazo de até 30 dias para decisão.
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A comissão responsável pela apuração é formada por três servidores efetivos e estáveis: Carlos Henrique Beuting e Luciano Camargo, ambos do Samae, além de Tânia Mara Vieira Pompermayer, representante indicada pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Brusque, o Sinseb.
Outro ponto relevante da resposta é que o Samae admite a possibilidade de comunicação a órgãos competentes caso sejam constatadas irregularidades. A autarquia também afirma acreditar que o caso esteja sendo acompanhado pelo Ministério Público de Santa Catarina, em razão de solicitação de informações feita anteriormente pelo órgão.
Apesar da confirmação da sindicância, o Samae afirma que ainda não há conclusão administrativa definitiva. A autarquia sustenta que os trabalhos da comissão possuem caráter sigiloso e que o acesso aos autos e às informações processuais é restrito às partes legitimadas e às autoridades competentes.
A resposta também revela dados sobre a atuação do Samae no combate a fraudes, furtos de água e ligações clandestinas. De acordo com a autarquia, entre junho de 2024 e junho de 2026 foram realizadas 108 ações de fiscalização e controle, que resultaram em 186 intervenções. No mesmo período, foram aplicadas 186 multas, registrados quatro boletins de ocorrência e recuperados R$ 53.430,06. Não houve ações judiciais nem acordos administrativos.
O contraste, porém, chama atenção. Enquanto a autarquia afirma manter uma estrutura de fiscalização contra fraudes, furtos e irregularidades no abastecimento, o caso envolvendo um servidor da própria instituição segue sob sigilo e sem explicações detalhadas à população.
Na prática, a resposta ao pedido da vereadora Bete Eccel confirma a existência da investigação que o Olhar do Vale já havia revelado e reforça a gravidade do caso. A diferença é que, desta vez, a informação não vem de bastidores, denúncias ou documentos internos obtidos pela reportagem, mas de uma manifestação oficial assinada pelo diretor-presidente da autarquia.
O Samae também informou que possui servidores ligados ao controle de perdas, setor responsável por ações contra desperdício, vazamentos, fraudes, furtos e outras ocorrências relacionadas ao uso irregular da água. Segundo a autarquia, parte dessas atribuições passará a ser executada pela concessionária após a concessão dos serviços de esgotamento sanitário e serviços auxiliares de abastecimento de água, mas a competência fiscalizatória e normativa continuará com o Samae.
A vereadora Bete Eccel havia solicitado esclarecimentos justamente após a publicação da reportagem do Olhar do Vale. A resposta oficial mostra que, embora o Samae tenha evitado se manifestar quando questionado pela imprensa, a denúncia gerou um procedimento formal dentro da autarquia e pode ter desdobramentos após a conclusão da sindicância.
O espaço segue aberto para manifestação do Samae e dos citados.




