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Dia internacional do Peacekeeper: policial militar de Brusque conta experiência em missão brasileira no Haiti

Tiago Gabriel Schlindwein Schmidt conversou exclusivamente com a reportagem de Olhar do Vale;

Foto: divulgação -

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Brusque – Desde o ano de 2003, o dia 29 de maio é lembrado em todo o mundo como o Dia Internacional dos Peacekeepers. Talvez num primeiro momento você não saiba exatamente o que isso significa, mas a tradução literal para o português do Brasil, “mantedores da paz”, já traz uma ideia de que se trata dos “boinas azuis”, grupo geralmente de militares que atua nas missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) em locais afetados por tensões de guerra.

A data remonta a operação executada pela organização para supervisar o cessar fogo da guerra árabe-israelense, nos idos de 1948, tida como a primeira missão de paz da história. O dia, porém, só começou a ser lembrado de maneira comemorativa no início da década passada.

Nascido em Santo Antônio do Sudoeste, no Paraná, formado em Gestão Ambiental e policial militar lotado na cidade de Brusque, Tiago Gabriel Schlindwein Schmidt tem 25 anos de idade e uma experiência impressionante no Exército Brasileiro. Quando tinha 20 anos de idade o, até então, soldado do 33º Batalhão de Infantaria Motorizado (33º BIMTZ), situado em Cascavel, tomou uma grande decisão: a de se candidatar para uma missão da ONU num Haiti recém destruído por um enorme terremoto. Entre muitos outros militares competentes, Schmidt conseguiu um lugar na empreitada no exterior. “Muitos passaram pelo batalhão e não tiveram essa oportunidade. Graças a Deus, pude de ser escolhido”, disse ele, em entrevista exclusiva a Olhar do Vale (ODV).

Foram seis meses de treinamentos árduos antes do embarque. Noções de crioulo haitiano (língua falada no país), aulas de história daquela nação, treinos de progressão, tiro e abordagem foram algumas das lições aprendidas para a missão. Muitas das quais, segundo o PM, ainda hoje são utilizadas no exercício diário da função. Era agosto de 2010 quando Tiago e cerca de 30 outros militares embarcaram num avião da Força Aérea Brasileira (FAB) rumo à missão ao qual foram designados.

A rotina no Haiti

Chegando em terras haitianas o primeiro oponente que o pelotão enfrentou certamente foi o calor descomunal. E o pior é que essa batalha foi travada de forma praticamente ininterrupta durante os seis meses de missão, até fevereiro de 2011. Fora isso, a rotina de trabalho dividida em escalas se resumia em patrulhas e rondas ostensivas nos campos de desabrigados e favelas. O principal intuito era manter a paz e a ordem. Segundo nosso entrevistado, no ano de 2010 a situação já era bem mais calma de que em anos anteriores. “Em 2004, por exemplo, a criminalidade era muito alta. Cada soldado ganhava 80 munições no início do seu serviço e voltava praticamente sem. Com a presença da ONU no passar dos anos isso foi diminuindo (…) nós deveríamos ser o penúltimo contingente, só que como houve o terremoto e como não existe nem exército e a polícia é ineficiente e corrupta, as tropas ainda continuam”, disse.

“Vivemos num paraíso”

Apesar de o Brasil ser palco de muitos problemas de corrupção, sociais, econômicos e políticos, de acordo com o boina azul é preciso valorizar a maneira como vivemos. Ele diz isso embasado em toda a miséria, fome, criminalidade e doença que viu em terras haitianas. “Eu aprendi o que é dar valor até para um copo de água. Lá é bem complicado. Muitas crianças são órfãs por causa do terremoto, ou por causa de doença dos pais. Lá, quem passa fome não sabe se vai conseguir comer naquele dia. Não tem de onde tirar”.

Em um dos momentos mais impressionantes da entrevista, Tiago nos fala sobre sobre uma realidade de séculos no país. Grande parte da população faminta faz da argila amarela parte do menu diário. Isso mesmo, os haitianos comem terra. Parece absurdo, mas para driblar a fome, biscoitos em formas de discos chegam a ser comercializados por cerca R$ 0,10 atualmente. À base de argila e água, resta ao sal (um condimento de luxo por lá, diga-se de passagem) quebrar, pelo menos um pouco, o sabor terrível do quitute nada saudável e humano. Gatos quase não são mais vistos na rua. Os que aparecem costumam ter vida curta. “É churrasco na certa. Seria cômico se não fosse trágico (…) pra você ter noção do tamanho da necessidade e da fome”, complementou.

Eleições presidenciais

Apesar de relativamente tranquila, o momento de maior tensão entre todos os seis meses de missão ocorreu durante as campanhas eleitorais presidenciais. Opositores do até então candidato à reeleição René Preval entravam em conflito constantemente contra as forças da ONU. Em um dos protestos, o pelotão do PM brusquense se viu cercado por centenas de manifestantes. Felizmente, dessa vez nada de mais grave ocorreu, antes e depois de o reforço ser acionado. “As depredações aconteciam direto. Eles pensavam que os militares representavam o governo de René, que era muito reprovado por conta da corrupção”, afirmou Tiago.

Após levar as eleições para o segundo turno, Michael Joseph Martelly acabou se tornando presidente do País. Vale relembrar que nestas eleições o rapper Wyclef Jean, radicado nos Estados Unidos, tentou se candidatar, mas foi indeferido algum tempo depois.

O soldado brasileiro

O futebol, o português e o carisma une o combatente brasileiro com o povo haitiano. Para o entrevistado de ODV, o trabalho dos nascidos no país que comanda a missão de paz no Haiti era reconhecido e se destacava entre os demais países. “Tanto com as crianças e com os adultos, não tenho dúvida que o brasileiro era o preferido deles. Falávamos os nomes dos jogadores de futebol como Kaká, Robinho e eles ficavam todos empolgados. Até participamos de algumas ‘peladas’ e parecia Copa do Mundo. Em questão de minutos nos cercavam para ver os jogos”, ressalta, entre risos, o militar.

Experiência pra toda a vida

Tiago Gabriel Schlindwein Schmidt se considera outra pessoa desde que voltou do Haiti. “Muda totalmente. Aprendi a dar mais valor ainda as pequenas coisas que tenho e, também, aos amigos familiares, a água gelada em nossa geladeira, coisa que eles não sabem o que é. Chega o horário do almoço, tem coisa pra comer… Esse tipo de coisa que eu já valorizava mais agora valorizo ainda mais. Lá, com certeza eles queriam estar no nosso lugar. Muitos não tem nem lugar pra dormir. Muitas vezes choramos de barriga cheia. Foi um aprendizado enorme que vou levar até meu último dia de vida”, finaliza.

A viagem de Tiago foi documentada em centenas de fotos. Folgas, patrulhas, acontecimentos relevantes; tudo isso em um grande portfólio de impactantes imagens. Algumas delas você confere nesta galeria cedida pelo soldado:

por Wilson Schmidt Junior

Publicado por Olhar do Vale

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